Imprimir

“Sem as abelhas, o homem pode desaparecer em quatro anos”, disse Albert Einstein, numa previsão catastrófica, na primeira metade do século XX.

A maioria das pessoas desconhece que as abelhas cumprem um papel infinitamente mais relevante do que apenas produzir mel. Elas são os melhores e mais eficientes agentes polinizadores da natureza, responsáveis pela reprodução e perpetuação de milhares de espécies vegetais, produzindo alimentos, conservando o meio ambiente e mantendo o equilíbrio dos ecossistemas.
A polinização das abelhas é fundamental para garantir a alta produtividade e a qualidade dos frutos em diversas culturas agrícolas pelo planeta. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 85% das plantas com flores das matas e florestas e 70% das culturas agrícolas, dependem dos polinizadores.
Nos últimos 15 anos, 50% a 90% das abelhas têm morrido no planeta. Causas naturais e produtos agrotóxicos certamente são responsáveis por isto, mas ainda não são o principal motivo por uma queda tão assustadora no número destes insetos. No próximos minutos vamos falar de abelhas e de muito mais.
Ricardo Sequeira tem vindo, nos últimos anos, a encontrar forma de melhorar o aconchego destes insetos, os únicos que produzem alimento para o homem, e por isso merecem todo o conforto.
A carpintaria sempre foi o seu mundo e depois de ter participado numa formação sobre iniciação à apicultura descobriu o seu rumo, ou seja, fazer colmeias e tudo o que lhe está inerente. Fundou a Colmeiser, que tem sede na Sertã, estando neste momento a ser apoiada pela Incubadora de Empresas da Sertã (Inser).
Ricardo Sequeira deu os primeiros passos nesta incubadora e aos poucos pretende conquistar novos mercados.

Rádio Condestável (RC) – Ricardo Sequeira, como surgiu esta aventura de construir colmeias?
Ricardo Sequeira (RS) - Esta aventura surgiu de uma pequena formação de apicultura. Fui convidado para a fazer e a meio da formação despertou-me a atenção a importância da abelha no nosso dia-a-dia porque a abelha é precisa para polinizar as árvores: se não houver abelhas não há vida. Como a minha vida tem sido sempre carpintaria, lembrei-me de começar a fazer algumas caixas para a treinar e serem para mim. Depois surgiu-me e a ideia de começar a fazer um projeto e tive conhecimento que a Incubadora da Sertã já estava aberta. Naquela altura eu já fazia os festivais do maranho com artigos rústicos e peças de carpintaria. Um dia surgiu-me o nome de “ColMeiSer” e foi aí que comecei a fazer colmeias, mas elas tinha m que ser mais ao meu gosto e melhores.

RC – Então baseou-se nas existentes para melhorar?
RS – Sim pois não sou eu que as vai avaliar, é quem as compra e quem gosta, mas faço-as com as mesmas medidas. Consegui algumas alterações para benefício do apicultor, para terem mais durabilidade e melhor manuseamento.

RC – Entretanto tirou mais formações?
RS - As formações ajudam muito e por isso continuei a tirar formações. A primeira foi a iniciação à apicultura, depois foi a criação de rainhas, ultimamente a dos tratamentos. As formações são muito importantes para saber como manusear, o que é que está bem, o que temos que alterar na colmeia… depois tecnicamente há o “espaço abelha”, na construção é preciso dar as medidas todas certas, porque se temos um espaço maior e outro mais pequeno, elas começam a criar mais ceras e depois é difícil alternar os favos e colocá-los lá, porque começam a engrossar e vamos estragar a criação. E se tiveram as medidas certas funciona bem.

RC - É preciso ter conhecimento de raiz para conseguir chegar ao tamanho certo e conhecer bem a abelha?
RS - Sim é preciso saber muito bem. Na formação tem que saber qual é o início dela, o que vai fazer, como é criado, logo de início o enxame, se a Rainha está lá ou morreu, se está ou não a fazer a produção. Se estiver muito cheia temos que a desdobrar e fazer outra, ou seja dar espaço. É nisso que tenho estado a trabalhar.

RC – Que colmeias fazem e como fazem?
RS - No que diz respeito ao fabrico, as medidas é tudo igual, o modelo das nossas colmeias é reversível. Tenho estado a fazer a Lusitana mas aqui na nossa zona o que se gasta mais é a reversível. Uso madeira de pinho, da zona centro, nos fundos uso contraplacado marítimo, que não apodrece tão fácil. Por aí a maior parte são todas em platex. Agora já estamos a trabalhar para um isolamento nos telhados. Vão-se conseguindo algumas alterações para que o apicultor tenha um benefício, gaste o dinheiro mas que seja bem gasto.

RC – Esses benefícios vêm de experiências que vai fazendo?
RS – Sim. Vou fazendo nas minhas próprias abelhas, no meu apiário, vou também fazendo alguns enxames para venda, mas o teste, e saber se as coisas estão a funcionar bem, é do meu apiário que começam a partir essas alterações.

RC – Considera que houve um “BOOM” na apicultura? Era uma atividade residual, mas já há muita gente que faz disso um “hobbie”…
RS - É um desporto. Para além do bom que se retira, a abelha é o único inseto que nos faz alimento. Há quem faça disto profissão. Quem quer ir mais além e que tem muitas colmeias, tenta tirar partido delas. Começa a haver muita gente porque também houve as oportunidades do CEARTE e de outras empresas abrirem várias formações.
O facto de eu também fazer as feiras, aqui na zona dos cinco concelhos, em que comecei a levar as colmeias, as pessoas começaram a admirar-se, os acabamentos, as alterações… E hoje tenho clientes porque viram as diferenças (não quer dizer que seja melhores), ficaram curiosas e começaram e já temos alguns clientes a quem também damos alguma assistência.
A abelha é um mundo bonito. Não podemos deixar que ela morra, porque devido aos produtos, aos inseticidas que se aplicam nas propriedades morre muita abelha. A este propósito faço um apelo a pessoas que ao fazerem a limpeza nos terrenos, plantassem outras espécies de flores para que haja comida para elas e consequentemente haja polonização. A abelha é mesmo precisa. Quando há muita fruta, ela ao fazer polonização, produz-nos ainda mais.

RC - Nesta zona, que mel é produzido?
RS - O nosso mel aqui é multifloral, apanha muita variedade de flor e árvores.

RC - Para além do mel que outras mais-valias se retiram da colmeia e da abelha?
RS - Temos o mel em si, o pólen que não tem sido muito explorado. É mais explorado na zona de Vila Velha de Rodão, e mais perto de Espanha porque também é preciso ter um certo número de colmeias para se ter uma quantidade boa e ter a máquina de secagem, se for para venda.
Depois temos o própolis, que é uma rezina que as abelhas levam para dentro da colmeia para selar todas as fissuras que lá existem, Isso é um produto muito leve, mas também é preciso uma boa quantidade de colmeias para conseguirmos 4/5 quilos, por isso é um produto bem mais caro, ou seja cerca de 50 € cada quilo, mas para ter rentabilidade são precisas pelo menos 500 colmeias.

RC – E aqui já há essas quantidades?
RS - Com os clientes com quem tenho lidado e falado, rondam um máximo 200/250 nossa zona. Depois há quem tenha 30 ou 40, há quem tenha 20, outros cinco, é consoante a possibilidade das pessoas. É que isto para alguns é um hoobie e um desporto, mas também sai caro. Os produtos são caros. Os que se aplicam para a doenças que elas apanham, a própria cera que se coloca para facilitar um pouco a vida delas e nos rentabilizar mais rápido também não é barata.

RC – Uma vez que já existe muita gente ligada a esta área, era bom que nascesse uma associação onde as pessoas pudessem entregar o mel para depois ser comercializado e rentabilizar ainda mais esse produto?
RS - Nós na Sertã deveríamos de ter e penso que, com a parceria com a Aproser e com a incubadora, poderemos um dia ter uma associação. Neste momento estamos ligados a Mação mas fica longe e quem tem 10 ou 12 não se vai por ao caminho para extrair o mel. Seria bom, tal como darmos uma marca ao mel da nossa zona. Há produtores que vendem no mercado e que têm rotulo, mas era bom que os pequeninos entregassem o excesso, que fossem analisado… Era uma mais-valia para o nosso concelho.

RC – Quanto à Inser. Foi importante para se poder lançar?
RS – Sim. Fui aconselhado pelo Sr. presidente José Farinha Nunes no Festival do Maranho em 2013 para passar por lá. Foi o que fiz. Fui bem recebido e deram-me logo forças para avançar com o projeto. É uma mais-valia para um começo. Sabe-se que para um empresa começar sem nada, do zero, é muito difícil, temos que ir a pouco e pouco com muito trabalho. Tem-se criado algumas alterações e depois de reuniões chega-se a uma conclusão se é ou não fiável. Por exemplo com a questão da internet, de sermos vistos facebook, o vídeo promocional no facebook feito pela Inser através da Universidade de Lisboa, tem neste momento 4.450 visualizações. Temos os produtos todos expostos, é só passar por lá e ver.

RC – O trabalho físico é importante mas a divulgação e publicidade apelativa também. Ter uma ajuda de alguém no aspeto visual é fundamental?
RS - Para estarmos num lado não podemos estar no outro. Durante o dia principalmente, tem que se fazer as encomendas, mas à noite e muitos dias de madrugada respondo e tenho respondido às encomendas e mesmo a questão de ver, tem que se ter mais alguém que esteja sempre em cima para conseguir que sejamos vistos e que as outras pessoas tenham resposta. A parte da Inser só foi mesmo a organização da página do facebook, como colocar as coisas, fotografias. Tenho outra pessoa comigo que já fez outras alterações nas fotos e que se vão colocando no facebook para, à medida que se vai fazendo produtos novos, serem vistos.

RC – O facebook tem sido importante para chegar mais longe?
RS - Sim é muito importante. É indispensável e a partir de um click somos vistos por todo o mundo. Sem esta ferramenta tínhamos que andar como antigamente, a fazer quilómetros e quilómetros para chegar às pessoas e mostrar.

RC – Os Quintais nas Praças do Pinhal também ajudaram?
RS - Sim, ir às feiras e ir perto dos clientes, falar com eles e estar a mostrar o produto é muito bom e importante. Espero que continuem porque conseguimos levar uma ideia, no espaço de um mês, e mostrar logo ao cliente ao vivo.

RC – E quanto aos Festivais de Gastronomia do Maranho. Em que medida ajudam a desenvolver a atividade?
RS - Maranho é um nome que traz muita gente de fora, é uma mais-valia. Termos cá a televisão, como foi em Cernache do Bonjardim quando veio ao espaço do seminário, todos estes eventos são bem-vindos para a região. Esperemos que venha muita gente, que nós estamos cá para receber e estamos lá na feira.

RC – A participação nas feiras traz feedback em termos de aquisição ou encomendas dos produtos?
RS – As feiras não é aquela altura em que se vende muito. É quando apresentamos o nosso produto, a pessoa vê e leva um contacto. Mais tarde, vão ao facebook ou à página, vão ver, e aí é que se a pessoa gostar poderemos ter uma retoma.
Nestas feitas as pessoas não vão levar uma colmeia debaixo do braço, vão levar é coisas mais pequenas. Mas sempre enche o olho, se é um produto que nós apresentamos e a pessoa esteja interessada não levará naquele momento mas mais tarde poderá a vir encomendar como já tem acontecido.

RC – Para além das colmeias o ricardo dedica-se também ao fabrico de um artesanato mais rústico. É um complemento?
RS - Exato. Antes de sermos “ColMeiSer” a minha vida sempre foi na área da carpintaria, agora com as colmeias e depois há meses em que enfraquece, surgiu-me a ideia de começar a fazer o artesanato mas ligado a Sertã. Assim, nos meses mais fracos faço mais qualquer coisa de novo e faço sertãs de madeira e outras alusivas ao concelho. Como estou ligado ao grupo de artesãos da Sertã, no NuMoas, têm surgido muitas ideias e temos vindo a fazer coisas diferentes

RC – Aquele espaço, para início de atividade é bom?
RS – Sim. E é um orgulho enorme termos uma montra e vermos os nossos colegas também. É uma ajuda muito grande, pois se tivéssemos que pagar renda seria muito mais difícil. Quando se começa do nada é muito complicado e com despesas mais complicado é.

RC – Já falámos na Inser e na Aproser, molas impulsionadoras para a ColMeiSer e outros artesãos e empreendedores. O Ricardo tem aproveitado todos os impulsos que estes organismos dão?
RS – Sim tenho aproveitado. Também é preciso trabalhar muito, é preciso estar. Não e só ter lá o produto, as nossas coisas. Paralelamente a isso há reuniões e outras feiras que acontecem. Por exemplo estivemos na FIA e foi preciso estar lá. No NuMoas é preciso estarmos um dia ou dois por mês, conforme a disponibilidade. As coisas têm tido um bom princípio, a câmara tem tido um bom desempenho, temos que colaborar e perder algum tempo.

RC – Olhando para o futuro, que perspetivas o que é que vê em termos de negócio?
RS – Pensamos sempre para mais e melhor, o futuro é continuar a trabalhar. Isto não é para enriquecer mas é para fazer mais e melhor. Esperamos que, tanto na área das colmeias e artesanato, desenvolver mais produtos e com qualidade. Gosto de fazer diferente e bem feito.


Av. Dr. Abílio Marçal, Lote 1 B 6100-267 Cernache do Bonjardim

geral@radiocondestavel.pt

Telefone: Geral: 274 800 020

Redacção: 274 800 028/7

Tempo Cernache Do Bonjardim


Estatísticas

Hoje
10610
Ontem
16307
Este mês
329473
Total
11258621
Visitantes Online
27