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Pedro Matias continuou a trabalhar mas não recuperou o que o fogo destruiu... Em agosto de 2017, Vila de Rei foi um dos concelhos afetados pelos incêndios florestais, aqueles em que as chamas consumiram, em segundos tudo o que encontraram pela frente. Quem os viveu e a eles sobreviveu não esquece os momentos de angústia e de impotência.
O “monstruoso” incêndio, “sem explicação”, veio sem avisar e consumiu tudo o que surgia pela frente, sem pedir licença, sem querer saber se o que engolia era ou não o sustento de muitas famílias.

Pedro Matias vive em S. Martinho. Nesse domingo à tarde o fogo cavalgava de monte em monte. Devorou tudo em segundos. Longe de casa e dos seus pertences, da sua herança, não teve tempo nem oportunidade para salvar as máquinas e as ferramentas de trabalho. “Eu vinha na localidade de Peredes mas já não consegui passar. Tive que esperar porque as estradas estavam intransitáveis. As chamas estavam mesmo a arder na estrada”, descreve ainda com a voz intermitente perante a recordação. “Imaginava que estava a passar aqui perto mas não imaginava que já cá estivesse a arder”, sublinha. Esperou “para não correr riscos” mas “quando cá cheguei, deparei-me com este cenário”. E o cenário é simples, mas duro e ainda negro: três barracões = 15 mil euros de prejuízo. Quando finalmente chegou, os barracões “estavam todos a arder ao mesmo tempo. Tive que recorrer aos outros e deixar este”, diz, apontando para aquele, ali à beira, onde tinha uma carrinha e bastantes ferramentas. “Já não deu hipótese de recuperar”, lamenta.

Pedro Matias foi um dos que não recuperou os estragos nem a atividade. “A empresa já não estava muito sólida, então sem ferramentas não valia a pena”, desabafa. Trabalhava em terraplanagens, esgotos e abastecimento de água. O fogo destruiu as ferramentas mas não a vontade de continuar. É certo que não reconstruiu os barracões nem recuperou as ferramentas, devido aos custos inerentes, mas também não ficou de braços cruzados. “Desenrasquei-me. Não é por ficar sem estas ferramentas que fico parado, que me vou abaixo. Não posso”, confirma, acrescentando que agora “trabalho numa outra área, mais ajustável”. Quanto à recuperação das infraestruturas, apesar de ter tido a palavra da autarquia, “eles não tinham o que eu precisava. Eles tinham tijolos, eu não precisava, eles davam tinta mas eu não precisava. Eu precisava de uma cobertura fácil de colocar e de ferro mas eles não tinham”, lembra. Quanto a outros apoios “ficámos de fora e, com pena, fica assim. Custa ver desaparecer o que os meus pais construiram", lastima, embora ciente de que não é o único nesta situação e de que há pessoas que ficaram bem pior na vida e “olhe, temos que aguentar”, diz, conformado.

A sua casa também esteve em risco mas pior que isso “é perceber que estamos sozinhos” e, em segundos, Pedro Matias transforma o conformismo em revolta ao recordar, de novo, o momento em que chegou a S. Martinho, em que viu tudo a arder e “não vi um único carro de bombeiros. Não vi ninguém. E depois de tudo arder oferecem-nos ajudas mas isso não significa nada”. “Podíamos ter tido cá um carro de bombeiros, não tivemos nenhum. Após isto arder estavam seis camiões dos bombeiros junto ao estaleiro da Junta de Freguesia”, acusa, desapontado com os organismos responsáveis.
Pedro contornou a desgraça. Ás vezes, confessa, “sinto-me um pouco triste” e penso “onde estão as ferramentas que preciso. Paciência”. Pedro regressa ao conformismo.
A conversa termina e este trabalhador vai à sua vida, regressa ao seu novo trabalho, aquele que também lhe permite ver e sentir a desgraça de outros, pelo mesmo motivo dos incêndios. Noutros concelhos reduz a escombros paredes de habitações já transformadas em cinzas.
Em 2017 as chamas devastaram o verde de uma zona que continua a ser do pinhal, mas dificilmente considerada a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa.


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