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Recuperação demorará cerca de três anos, mas vai acontecer… O dia estava quente. Demais para um mês que roçava o outono. Era outubro, dia 15 e os termómetros marcavam mais de 30 graus. Os avisos tinham sido lançados mas o que mais se temia acabou por acontecer e romper a pacatez desse domingo. O fogo galgou montes e vales. Engoliu tudo o que apanhou pela frente na aldeia de Sobral, no concelho de Oleiros.

“Foi trágico para nós e para toda esta zona”, descreve João Marques, um dos responsáveis da empresa Casa Fernandes, com sede em Sobral, concelho de Oleiros. Quis o destino que uma faúlha entrasse numa zona do lagar de azeite da empresa. Entrou, ficou e cresceu. Quando se apagou, parte desta infraestrutura estava destruída. Foi-se o sustento sazonal de algumas famílias da aldeia. “Empregávamos aqui quatro pessoas, o que não aconteceu este ano devido ao lagar ter ardido”, diz. Além deste facto, entre 200 a 250 clientes foram afetados e, aqueles cujas oliveiras não arderam, tiveram que procurar uma alternativa fora para moer a azeitona. Sem o emprego sazonal que dava movimento a aldeia ficou mais pobre.
João Marques tinha apostado todas as fichas do jogo no desenvolvimento do negócio daquela casa agrícola. No lagar “estava a maioria dos nossos haveres”, e por consequência, no azeite “a nossa aposta forte”. “Arderam-nos cerca de 5 mil oliveiras neste incêndio de 15 de outubro. Tínhamos um projeto bem delineado, com objetivos bem traçados”, descreve o empresário que pretendia implementar uma “marca” que o incêndio acabou por atrasar.

O processo há-de acontecer mas demorará agora cerca de três anos. “Temos que dar tempo ao tempo e esperar para que possamos novamente voltar a laborar a 100%”, auto conforta-se. Até lá, perfilam-se mudanças e surgem já novas perspetivas de mercado. Os incêndios foram maus sim, mas em Sobral acabaram por abrir uma janela de oportunidades. A volta será dada por cima e “tentamos dinamizar ainda mais o nosso negócio. Neste momento temos candidaturas já aprovadas para a Casa Fernandes e estamos agora a preparar algumas para uma linha de engarrafamento, de enchimento que poderá ser ou não aprovada”, diz, esperançado que “isso possa acontecer até para que possamos dinamizar e não deixar cair esta zona no esquecimento”, alimenta. A entrada em novos mercados é outro dos rumos. A casa está igualmente a fazer uma aposta muito grande na plantação de novo olival para “posterior exportação do azeite. Temos outros produtos que pretendíamos certificar e criar uma marca, nomeadamente o medronho”, revelou, dizendo que esta “será outra das apostas futuras”.
Se esta empresa espera sucesso com as candidaturas, João Marques sabe que o mesmo não se passará com outras pessoas que têm dificuldades com as questões burocráticas e “há aqui umas questões que poderiam ser ultrapassadas com alguma fiscalização a nível dos terrenos agrícolas que é isso que compete aos ministérios que tutelam esta parte dos incêndios, mas que não acontece. As pessoas acabaram por sair prejudicadas e aceitar candidaturas, se calhar de 5 mil euros com prejuízos muito maiores”, revela, esclarecendo que “se contentaram com uma ‘esmola’ para as perdas que tiveram”, vinca.

Apesar de serem uma empresa, João Marques confessa que também sentiram algumas dificuldades na apresentação de candidaturas. “Fizemos um projeto que foi cortado em cerca de 10 mil euros” lamenta, ciente de que era um projeto “justo dentro dos prejuízos que nós tivemos”, acusando que “há aqui alguma diferença entre aquilo que está realmente no terreno e os prejuízos que são olhados por parte de quem nos governa”.

A aposta atual da Casa Fernandes é o azeite mas “temos vários produtos, nomeadamente o medronho, o vinho e também temos uma grande aposta na floresta”, elucida, crente que o setor será rentável “nas próximas gerações” apesar da dificuldade de se voltar aos tempos em que “as pessoas, quando precisavam de fazer algum dinheiro para subsistência ou para alguma despesa que tinham, socorriam-se realmente do pinhal”. Por isso terão que ser, aponta, “tomadas medidas importantes para olhar para esta zona com olhos de ver”.
Para além do visível, a tragédia deixou marcas profundas e muitas vão-se soltando aos poucos. João Marques confessa que nas primeiras semanas depois do incêndio, a vontade de recomeçar era pouca ou nenhuma mas agora, passados sete meses e com 35 anos feitos diz que se sente com “plenitude para lutar contra este flagelo de todas as maneiras, e naquilo que acredito”, mas olhando à sua volta, para uma região desertificada, sente dúvidas que o mesmo acontecerá com outras pessoas, as mais idosas e com menos faculdades. “Até a nível psicológico haverá pessoas com sérios problemas que eu acho que estão a ser acompanhadas por técnicos capazes, mas que realmente desanimaram e eu não vejo grande solução para este problema que está inserido neste momento na nossa zona”, queixa-se.

Por onde quer que caminhemos nesta zona “é raro ver uma árvore verde, só ao pé das casas e nas zonas mais urbanas”. A “devastação foi total”. “Parece que, em alguns sítios, rebentou aqui uma bomba atómica”. As frases são de João Marques mas podiam e são, certamente, de muitos outros que, como ele, perderam o seu sustento e por isso deixa um alerta “para os nossos responsáveis máximos, que esta é uma oportunidade única para existir aqui uma ponto de viragem. A tragédia de Pedrógão fez com que o interior, e estas pessoas do interior que foram muitas vezes esquecidas pelos nossos governantes fossem olhadas e que o tema entrasse na ordem do dia. Portanto apelo para que saiam dos gabinetes, que venham ao terreno, que é no terreno junto das pessoas que se conhecem os problemas reais que se passam no interior e que olhem para estas pessoas da maneira que elas merecem, chega realmente desta assimetria”, clarifica, pedindo iguais oportunidades para o interior, “nem que tenhamos que dar um murro na mesa”.

A educação que recebeu não permite a João Marques “deitar a toalha ao chão”. Em Sobral apesar do desânimo dos primeiros tempos, vai-se “olhar para a frente, arregaçar as mangas e trabalhar”, a pensar “nesta zona”, nos filhos e nas gerações vindouras, acreditando que elas possam “ver um pinheiro com 30 ou 40 anos” e que “possam usufruir do que o pinhal nos pode dar”.
A Casa Fernandes ficou sem cerca de 350 hectares de pinhal, olival, medronheiros e eucaliptos. Os responsáveis pela empresa esperam que outros responsáveis, aqueles que o são pelo país, apliquem mudanças na floresta para que ela não arda e responsabilizem ainda outros responsáveis, aqueles que o são pela mão criminosa que todos os anos incendeia milhares de hectares de floresta, para que paguem pelos erros que cometeram.


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