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Cesteiro de Aveleira continua a trabalhar mesmo após perda dos vimieiros… Em Vila de Rei é o único a trabalhar o vime. José Luís, o cesteiro de Aveleira trabalha mecanicamente nas peças que diariamente lhe saem das mãos. Enlaça e entrelaça paus com folhas descascadas.

Dá forma e enforma as mais variadas peças. Há 40 anos que é assim. Manuseia a madeira de vime e desta arte saem cestos, canastras, cadeiras, mesas, bancos, chapéus e outros acessórios em vime. Do embaraçar dessa madeira saem agora, essencialmente, peças para decoração mas tempos houve em que estes objetos faziam parte da vida de quem trabalhava no campo. As feiras, de norte a sul do país são a sua vida e os dias são passados no seu atelier, portas meias com a sua casa de habitação. Numa outra garagem o irmão trabalha a madeira acabada de colher, descascando-a e colocando-a a secar. Branca de tom, contrasta com aquela que mantém a casca e que ao secar se veste de castanho. José Luís trabalha com vários tons de vime, obtidos através do processo de secagem dos paus. É assim, todos os dias, todas as semanas, todo o ano. Continua a ser assim mesmo depois do incêndio de agosto do ano passado, aquele que destruiu 80 % da sua produção de vime. As chamas “derreteram” todos os vimieiros que José Luís tinha plantado num terreno próximo de casa. “Perdi cerca de 80% da produção do meu vime que é o que me garante o trabalho durante o ano”, confirma aos microfones da Rádio Condestável.

Todos os anos faz colheita e agora, só com 20% dessa produção, tem sido difícil responder às encomendas. Não fosse a vontade e a inteligência de fazer play neste jogo que é a vida, José Luís teria permitido que a pausa causada pelos incêndios fizesse uma outra pausa no seu ofício, no entanto desembaraçou-se e investiu. Comprou matéria-prima fora, permitindo-lhe assim continuar na arte. “Tive que em tempo útil, já no fim do ano passado encomendar vime fora para ter material para trabalhar”, apesar de ainda lhe ter sobrado alguma quantidade do ano anterior “já que tinha sido uma excelente colheita”, confirma. O pior ano é mesmo o atual, altura em que o vimieiro ainda é pequeno e “vou colher menos quantidade do que era costume porque as árvores voltaram a nascer e acabam por dar menos quantidade”, diz, esperançado que “no próximo ano já devemos colher mais vime” e confiante que “no fim de três anos possivelmente já terei a produção normal que tinha”. 

Este é um trabalho, considera o artesão, incompreendido. Os objetos aparecem nas feiras, mas “nem todos entendem o que é o trabalho manual”, principalmente “as pessoas que estão nos cargos mais elevados. Elas desconhecem, que as pessoas quando estão a trabalhar nas feiras, que é o seu caso, necessitam de matéria-prima, e em muitos casos os incêndios levaram essa matéria-prima”, desabafa desiludido ao ver, da varanda da sua oficina, o que antes era pinhal verde, “hoje é um monte de paus negros”, suportados por um leve manto de flores e erva que começa a renascer, tal como José Luís. Na hora em que o lume surgiu, “o meu pensamento foi em salvar a casa e as coisas, porque perante o desfecho que nós estávamos a ver, não havia mais nada a fazer, o incêndio era de uma dimensão monstruosa”, descreve.
Sobre apoios, “a nível local, a nível do meu município, as pessoas responsáveis têm conhecimento da situação que estou a atravessar e, na medida do possível, eles tentam fazer o melhor que podem”, esclarece.

Em Aveleira espera-se agora que a fresquidão do terreno e o adubo vindo dos raios de sol faça crescer rapidamente o vimieiros. Na oficina de José Luis vai continuar a trabalhar, faça sol ou vento, frio ou calor.  Desistir nunca esteve na mira deste cesteiro. Sabe que pode contar com a ajuda dos amigos e da “Graça de Deus”. Deste modo “com certeza que vamos ultrapassar isto e vamos tentar tirar proveito disto”, é que “no fundo todas estas desgraças dão-nos outras oportunidades e dão-nos muitas vezes uma outra visão de outras coisas”, afiança.
Este e os outros incêndios que já assolaram o concelho “deixaram marcas para muitos anos”, reforça. José Luís não deixa passar a oportunidade e apela a quem de direito para tomar medidas concretas para “termos cada vez menos incêndios e para que se possa continuar a viver neste lugar tão bonito que é o interior de Portugal e em especial Vila de Rei”.


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