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Ainda cheira a cinza, de incêndio, em Sarnadas de Álvaro, no concelho de Oleiros... O fogo começou no concelho da Sertã em Ponte das Portelinhas mas depressa se estendeu a outros concelhos, tendo chegado a Oleiros e galgado para Pampilhosa da Serra. Na pequena localidade de Sarnadas de Álvaro, pouco tempo depois de ter começado este “inferno”já Armindo Barata dizia para a mulher que vinha lá o fogo que “nos havia de queimar a todos”. Horas depois, ali esta ele para provocar “uma tarde angustiosa para mim e para todos os meus”, recorda Armindo.

Pela gravidade que se adivinhava, “fui evacuado para Oleiros. Não vi o resto que se passou”, diz. E o resto foi devastador. No dia seguinte a filha foi buscá-lo. A informação e a posterior constatação, in-loco de que as casas onde estavam os animais, os palheiros e as casas da lenha tinham ardido deixaram Armindo sem as poucas forças que ainda lhe restavam. “A minha filha disse-me que só tinha ficado a casa de habitação”e o cenário era difícil de visualizar e de aguentar.“Já andava mal e fiquei pior de um esgotamento recente. Têm sido dias muito terríveis de se passar”, sustenta e já passaram sete meses. Sete meses a olhar as cinzas que ainda restam num amontoado ladeado de pedras queimadas em ruas estreitas, onde os raios de sol ultrapassam as frestas da solidão, daquela que era atenuada a pastorear as cabras e ovelhas que morreram. O lume que as queimou, queimou também a floresta, queimou igualmente o psicológico e a vontade de voltar a ter tudo como era. As obras nos currais novos já começaram “mas eu agora já não vou ter o gado que tinha, de maneira nenhuma”. Armindo tinha 29 cabeças de gado e apesar de lhe terem reposto parte do rebanho, “estou à beira da reforma e já não estou com idade disso”, repete sem saber o que irá fazer.

O olhar de Armindo não é mais o mesmo e o seu corpo e estado de espírito são apenas uma sombra do que eram antes de 15 de outubro de 2017. As cabras e as ovelhas eram a sua distração. As novas, as que a solidariedade de outras pessoas trouxe, vão continuar a ser. A filha Célia Barata confirma-o. “Um senhor de Tomar veio cá trazer duas chibas, uma outra senhora deu-me uma cabra e da câmara vieram uma borrega e uma mãe. É o que tenho”, retrata Armindo e “é uma forma de eles conseguirem ter mais algum ânimo”, reforça a filha. “São uma companhia e incentivo para cuidarem da horta”, mas Célia tem a noção de que, com os problemas de saúde, agravados nesse 15 de outubro “ não será fácil para o meu pai ter as mesmas coisas”. E depois falta “o mato para as camas dos animais e a comida para eles”, acrescenta Armindo Barata, lembrando que se tirar os animais, corre-se o risco de comerem os rebentos das oliveiras que agora começam a surgir. Assim “têm que ser alimentadas no curral” e fica “mais caro, e de que maneira”, desabafa.

Esta aldeia que se estende por uma estreita rua, flanqueada por casas antigas, a maioria ardidas, ficou longe dos olhos mediáticos das televisões. Dizem-nos os habitantes de Sarnadas de Álvaro que a Rádio Condestável foi o primeiro órgão de comunicação social a preocupar-se com “esta pobre gente”.
Armindo Barata gostava de voltar a ter o seu rebanho mas “como o tinha e com a vida que tinha”. Agora, como a vida se colocou “nem tenho ideias, nem posso. Tem que ser pouco porque não tenho condições nem cabeça para isso”. Este habitante ficou “fisicamente mal”, diz, acrescentando que “passo a maior parte do tempo na cama. Já estive internado várias vezes”.
São feridas que dificilmente irão sarar apesar da ajuda que veio e que ainda continua a chegar à aldeia e a sua casa. “Têm vindo cá de vez em quando trazer algumas coisas que agradecemos. Trouxeram-me ração e outras coisas que deram jeito para ir tendo o gado até agora e a câmara também tem ajudado”, confirma em jeito de agradecimento.

Célia não estava com os pais no dia de incêndio mas teve a vida da sua mãe nas mãos. O pai foi evacuado e sobre si recaiu a responsabilidade em decidir se a mãe também o seria ou não. Como ela não o quis, Célia respeitou mas “foi um peso na minha consciência pois até ao outro dia eu não sabia se ela estava bem se estava mal”. Felizmente a mulher de Armindo teve resiliência e, além de se ter salvo, salvou igualmente a casa de habitação. Se a mãe tivesse sido evacuada “o prejuízo tinha sido maior. Se ela cá não estivesse a casa tinha ardido. O quintal ardeu e ela conseguiu salvar a casa”, alivia Célia.
Na aldeia arderam mais currais e casas de primeira habitação. “A da minha avó ficou totalmente destruída”, lembra Célia Barata. As casas estão a ser reconstruídas e os processos estão bem encaminhados mas “é muito triste regressar à aldeia, porque dificilmente vamos ver a aldeia como estava”.

Explanada  a constatação, Célia não se contém. A fortaleza cai e as lágrimas rompem o olhar, agora mais triste. “É desolador olhar para esta paisagem e para as casas destruídas”. “As pessoas estão muito afetadas. É a cor, é o cheiro, é a perda de uma vida de trabalho, de árvores centenárias, frutas, legumes e tanto mais. Ficou tudo preto, tudo queimado”.
A fotografia revelada por Célia e fotocopiada em tantos outros locais da nossa região, de forma contínua, não ajuda à recuperação psicológica dos moradores que todos os dias olham a devastação deixada pelas chamas. O quadro, que agora começa a ter umas pinceladas de verde e de outras cores jamais esconderá outras marcas, mais profundas e invisíveis a olho nú. As casas estão esventradas, os barrotes calcinados. Os animais enterrados e a cinza num monte, tapando um caminho que, embora se vá reabrindo, nunca mais terá, para esta família, a rota que tinha antes dos incêndios do ano passado.


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