SERTÃ: Maratona de Leitura - Um grito de esperança, um alerta para a sustentabilidade

“Palavra ao Planeta” é o tema deste ano. Iniciativa cultural arranca amanhã, dia 30 de junho

SERTÃ: Maratona de Leitura - Um grito de esperança, um alerta para a sustentabilidade

Arranca amanhã, 30 de junho, a nona edição da Maratona de Leitura da Sertã. Após um ano de interrupção, por causa da situação pandémica mundial, a iniciativa regressa este ano, para dar a “Palavra ao Planeta”.
Esta iniciativa cultural abraça assim, este ano, um desígnio ambiental e sustentável mostrando que no concelho sertaginense existe a consciência de que é necessário cuidar da nossa casa global. Através de várias atividades, o planeta dos livros irá ganhar novas asas, colorir consciências e folhear novos ensinamentos.
Durante quatro dias a festa vai fazer-se através de exposições, presenças musicais, espetáculos, apresentações de livros, conversas com convidados, com contadores de histórias e com leitura em voz alta, este ano por causa das restrições implementadas, durante 14 horas.
A iniciativa é da Câmara Municipal da Sertã, levada a efeito pela Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes.

Ana Sofia Marçal é a diretora da biblioteca e assume a coordenação da Maratona de Leitura. Nesta entrevista fala-nos sobre o programa do evento e das expectativas para os próximos quatro dias de festa da leitura.

Rádio Condestável (RC) – Ana Sofia Marçal, por que é que o tema da Maratona de Leitura deste ano é “Palavra ao Planeta”?
Ana Sofia Marçal (ASM) – Por conta da pandemia, em 2020 ficou para trás a maratona que seria dedicada à literatura da América Latina. Os tempos que vivemos são tempos difíceis, de muita angústia mas também de grande esperança e por isso achámos que o nosso argumento deveria ser em torno da esperança. Esta esperança, não só para que possamos retomar a nossa vida mas também para termos um mundo diferente, com mais solidariedade e paz, com oportunidades iguais para todos, mais sustentável e por isso achámos que devíamos ter uma maratona que nos permitisse ler, ouvir ler, ouvir falar e refletir sobre temas que achamos importantes nos tempos de hoje e por isso queremos que a maratona dê uma palavra ao planeta.

RC – Também por isso a introdução da conversa sobre a Agenda 2030?
ASM – Exatamente. Segundo dizem os especialistas temos poucos anos para cumprir 17 objetivos fundamentais e a Maratona de Leitura vem também lembrar isso, consciencializar para esses objetivos e para que possamos viver no planeta Terra de forma sustentada, equilibrada e, se possível, feliz.

RC – Esta maratona tem vindo a provar que o livro marca presença em qualquer quadrante ou tema da sociedade ou em qualquer outra ação pessoal?
ASM – Um escritor haitiano disse um dia que “quando a desgraça nos assola, o que resta é a cultura” e no fórum das Nações Unidas em 2017 foi dito que o desenvolvimento sustentável só é possível se houver bibliotecas. É aí que existem os livros e acreditamos que a promoção da leitura, colocar os livros junto das pessoas e marcar a diferença na vida delas é essencial para termos um mundo diferente.

RC – A Maratona tem oito anos de realizações. Foi um evento que foi crescendo paulatinamente mas também com a vontade das pessoas!
ASM – Nunca imaginámos que a maratona viria a ser aquilo que é hoje. Os dois primeiros anos apenas dedicados a ler durante 24 horas seguida. Quando percebemos, e a Direção Geral do Livro e das Bibliotecas nos disse que não havia uma atividade igual no país, a câmara considerou, na altura, que valia a pena apostar nesta atividade e dar-lhe mais força. Aos poucos fomos convidando escritores, cada ano mais alguns, juntaram-se artistas e o objetivo hoje não é só ler livros, mas sim, música, fotografias, obras de arte. A leitura hoje é muito mais multifacetada. Deve-se, não só à vontade que a biblioteca teve em ter neste evento uma marca nacional no panorama cultural português, mas também à grande confiança que a câmara sempre depositou em nós, na equipa da biblioteca, caso contrário nunca conseguiríamos chegar até aqui.

RC – Existe atualmente um cartaz bem diversificado de atividades. Não se correrá o risco de concorrerem umas com as outras?
ASM – Sim. E aconteceu um ano em que tivemos algumas reclamações e manifestações negativas por parte do público porque queria assistir a várias atividades e não conseguiam porque não se conseguiam dividir e isto fez-nos refletir e tomar uma atitude. Assim, ou reduzíamos o programa ou estendíamos a maratona no tempo e as “24 horas a ler” deixariam de ser o chapéu de tudo e passariam a ser uma atividade do evento, mas sempre a mais importante e que é a “mãe” de todas as outras. E por isso a maratona foi crescendo, sendo que este ano é ainda mais um dia do que tem sido hábito nos últimos dois anos, também porque o evento nunca acontecia durante o período letivo. Este ano não é assim e os escritores vão estar com as crianças no primeiro dia, 30 de junho.

RC – A atividade “mãe” continua a ser, como referiu, as 24 horas a ler. Este ano, por causa da pandemia, serão só 14 horas. Pode esclarecer melhor esta opção?
ASM – A programação da maratona nunca foi divulgada tão tarde, muito porque também queríamos que ela saísse o mais próximo do real possível, tendo em conta todas as vulnerabilidades com que vivemos diariamente. Quando percebemos que não são permitidas atividades culturais depois da meia-noite, percebemos que tínhamos que tomar uma decisão relativamente às 24 horas a ler. Nunca deixaremos de lhe chamar assim, até porque há-de voltar a ser 24 horas a ler. Por conta das contingências tivemos que fazer uma leitura em voz alta mais curta. Começa às 10:00 de dia 3 e termina à meia-noite desse mesmo dia, justamente o limite em que podem decorrer as atividades.


RC – Ao longo dos anos pudemos perceber que este evento é também um laboratório de experiências…

ASM – Sim. Há muitas coisas que se foram experimentando. Em 2014 tivemos só escritores e vieram só para ler. Mas depois percebemos que eles teriam que falar com os leitores e no ano seguinte providenciámos encontros com escritores, mas depois percebemos que o espaço físico da biblioteca era pequeno (e ainda continua a ser pois dá-nos muitos transtornos diários), mas até beneficiou este evento, tenho que o admitir. O facto do espaço ser pequeno obrigou-nos a ir para a rua com estes escritores e a maratona ganhou, com isso, uma configuração turística muito interessante pois escolhemos sítios muito bonitos, ou junto a monumentos emblemáticos ou a zonas de água muito bonitas. Isso conferiu à maratona uma frescura que até aí não existia. Uma das atividades muito apreciada, desde sempre, foram os passeios de barco no Rio Zêzere e não há ninguém que tenha passado por essa experiência que não se lembre dessa experiência. O que não foi correndo bem ficou de parte, o que correu bem foi-se mantendo.

RC - A comunidade também se envolveu muito nesta realização?
ASM – Sim, e houve muita gente que se manifestou, de forma pesarosa, porque tivemos que esperar um ano para realizar esta maratona que envolve muita gente, muitos voluntários para ajudarem na logística antes ou durante o evento. Se não fosse assim seria muito difícil fazer o que se faz pois a equipa da biblioteca é reduzida. Tem sido um fator muito importante ver a comunidade envolvida nesta maratona.

RC – A credibilidade que o evento foi adquirindo reflete-se no interesse dos participantes. Alguns deixaram de ser convidados para passarem a fazer-se de convidados!
ASM – Sim, temos alguns que nos pedem se podem vir, mas nem sempre é possível responder favoravelmente a esses pedidos. Este ano tivemos uma editora que nos contactou pois queria ter cá os seus escritores. Infelizmente já não foi a tempo pois já tínhamos o programa fechado.

RC – Este é um ano de pandemia. Há cuidados suplementares a ter em conta?
ASM - Temos plena consciência que temos sobre nós uma nuvem de medo e sabemos que há muitas pessoas que não vão estar connosco por receio, mesmo nós estando a trabalhar para que todas as condições de segurança estejam implementadas no terreno. Apesar de serem muitas atividades elas são deslocalizadas no concelho, com pouco aglomerado de pessoas para que não haja perigo. Estava previsto a maratona começar com um cortejo na rua a favor da leitura em voz alta e da proteção do planeta. Essa atividade vai acontecer de uma forma muito mais singela, justamente porque há medo dos ajuntamentos.

RC – Relativamente ao programa, este ano, o que vai acontecer?
ASM – Serão quatro dias de festa. Uma festa mais discreta, com sorrisos escondidos debaixo das máscaras, sem abraços. Vamos começar dia 30 de junho com uma atividade nas escolas. Depois, além da leitura, teremos encontros com escritores, oficinas temáticas, música, espetáculos ou exposições. A vontade que tivemos em dar um alerta e mostrar às pessoas que é importante mudar atitudes, fez-nos convidar o Maurício Leite, um promotor da leitura brasileiro que possui a Cátedra da UNESCO para a promoção da leitura e já foi proposto várias vezes para o prémio ALMA. Ele desenvolveu um trabalho, durante muitos anos na Amazónia, junto dos índios, com a sua famosa mala azul. Ao longo destes anos desenvolveu uma coleção incrível de objetos artesanais, mais de cinco mil peças, construídas por essas tribos. Aí existe uma árvore chamada Buriti, importante para a manutenção do ecossistema global e muito respeitada na Amazónia. Estas tribos limpam constantemente a floresta para prevenir os fogos florestais e com o lixo dessa limpeza criam brinquedos, objetos de culto e pássaros incríveis. Nós vamos ter uma pequena amostra destas peças na maratona de leitura. A exposição estará patente nos Claustros do Convento da Sertã Hotel e será aberta a toda a comunidade. Esta mostra tem subjacente a questão da sustentabilidade, para a qual nós queremos alertar e motivou muitos escritores da atualidade, incluindo os da Sertã, para o nascimento do livro “Silêncio, os Pássaros leem em voz alta” e que vai ser lançado dia 2 de julho às 16:00, no Claustro do Convento. Este momento foi inspirador para o desenho de toda a maratona.

RC – Ana Marçal, está expectante para a edição deste ano?
ASM – Sim, muito e também com muitas dúvidas. Mas acima de tudo estamos muito felizes. Já não sabemos viver sem a maratona. Há sempre qualquer coisa que nos falta. Foi triste, não só vivermos numa pandemia, mas também vermo-nos privados de fazer isto que é o culminar de um ano inteiro de trabalho. A maratona seguinte começa a ser trabalhada quando a anterior termina e de repente isso desapareceu das nossas vidas. Há agora uma alegria grande dentro de cada um dos elementos da nossa equipa.

António José Simões é o responsável pela área da cultura na autarquia sertaginense. Nesta entrevista fala-nos de projeções para o futuro. Pelo meio o destaque para a dedicação e para a entrega de quem colocou esta iniciativa na agenda cultural nacional.

RC – António José Simões, podemos dizer que o concelho da Sertã já não passa sem este evento, já o podemos considerar um marco do concelho?
António José Simões (AJS) – Seguramente. Eu diria que a cultura na Sertã aprendeu a crescer também com esta possibilidade que se dá, a que cada um faça aquilo que sabe fazer bem. De facto a Maratona de Leitura é qualquer coisa que cresceu e que ocupou um espaço que já não se vive sem ele. Vejo o entusiasmo com que as pessoas falam do evento em si, o que prova isso mesmo.
No aspeto cultural da Sertã é imprescindível um evento desta envergadura, e é qualquer coisa que nasceu de uma ideia tão simples como ler em voz alta.

RC – É um motivo de orgulho, ou não, sentir que há escritores de renome que já pedem para estar presentes?
AJS – Obviamente que sim. O movimento literário vive também destes momentos com o contacto com o público, mais diretamente. Uma coisa é nós irmos a uma livraria e comprarmos um livro, não trazemos o autor connosco e não contactamos com ele. Na Maratona de Leitura há a possibilidade do público contactar com quem escreve e com quem tem coisas para dizer através da escrita.

RC – Como é que se responde a algumas críticas que falam em despender dinheiro público num evento que será só para alguns?
AJS – A nossa função também é a de explicar o que é a cultura e ela tem vindo a crescer com a Maratona de Leitura e com quem a promove, com esta possibilidade que este executivo deu e com esta janela de oportunidade que se abriu. Costumo dizer: quem não estorva já ajuda muito e isto enquadra-se muito bem num meio como o nosso. As coisas já não são como há nove anos e foi esta generosidade, com que se encarou este projeto, que permitiu que crescesse tanto.

RC – Como diz o presidente, este evento não é um custo, é um investimento!
AJS – Sim. O senhor presidente da câmara diz sempre que aquilo que se gasta em cultura não é uma despesa é um investimento. Nós começámos com um orçamento que não tem nada a ver com o orçamento de hoje em que já comporta alguma ambição e tem de ser assim. Ao longo destes três mandatos houve de facto investimento na cultura. Por exemplo o espetáculo do Feriado Municipal é exemplo disso. Alguém disse lá que cada tostão gasto foi bem gasto porque tinha músicos da terra e a maratona também já tem escritores da terra e é organizada por gente da terra. A nossa comunidade não compra cultura, a nossa comunidade faz cultura.


RC – Neste caminho houve muitas pessoas envolvidas. Que palavra lhes deixa?

AJS - Quem está envolvido na maratona tem méritos enormes. Gostaria aqui de lembrar que durante estes mandatos de José Farinha Nunes, o presidente permitiu que as pessoas fizessem o que de melhor têm de si, e este é um bom exemplo. Permitiu-se que cada um fizesse o melhor de si e esta equipa começou há uns anos com a Dr.ª Cláudia André, vereadora na altura. Foi no seu mandato que a maratona começou, que foi acarinhado e que foi crescendo, primeiro só com a leitura em voz alta, depois com programas um pouco mais ambiciosos, mas teve sempre por trás, e até, se calhar, na primeira linha, pessoas com a Ana Sofia Marçal ou o Rui Lopes, sempre apoiados numa vasta equipa. A Maratona de Leitura quando acontece tem uma série de colaborações intersectoriais. Em meios como a Sertã também é possível fazer coisas novas.

RC - Que balanço faz destes nove anos de Maratona de Leitura?
AJS – Estou, de alguma forma, ligado a ela desde o início, (no mandato atual vou alhear-me das responsabilidades que tenho no setor da cultura delegadas pelo senhor presidente). Eu acho que o balanço tem de ser muito positivo, sem querer exagerar nos adjetivos. Eu acho que a Maratona de Leitura também marca politicamente estes três mandatos, mostra que políticos que não são profissionais mas que são atentos, que deixam as pessoas trabalhar, que deixam as pessoas fazer o que gostam e que deixam as pessoas frequentar os eventos que gostam, também reflete isso, um balanço muito positivo. Já aqui foi dito que as coisas não voltam a ser as mesmas. Pelo simples facto de não se ter realizado a maratona de 2020 criou nas pessoas uma expectativa e uma tristeza, como disse a Ana Sofia, que há oito anos atrás ninguém imaginaria. Este é o melhor exemplo, ou seja, é confrontando as pessoas com a própria realidade que elas se apercebem dessa realidade.

RC – Não se sabe o futuro, mas era desejável que este evento não acabasse ao fim de nove anos!
AJS – Não. Um evento desta natureza não acaba. Conhecendo eu as pessoas da nossa comunidade não estou a ver alguém com características de “decapitar” um evento desta natureza, pelo contrário. Provavelmente toda a gente estará muito interessada em colaborar com as pessoas que fazem parte deste evento e em potenciá-lo, em dar-lhe coisas novas. É o que tem acontecido ao longo dos tempos, toda a gente vem de alguma forma colaborando com o evento, que depois se potenciam naquela data, naqueles dois, três ou quatro dias como é agora o exemplo. Este mote do planeta, da Agenda 2030 e todos estes temas relacionados com o planeta, é uma vontade quase expressa do sr. presidente de há dois ou três anos atrás e fica muito bem agora no final destes mandatos respeitar-se a vontade de alguém que sempre foi tão respeitador e tão benevolente com as pessoas que o rodeavam ao ponto de se criar coisas tão boas e bonitas como a própria maratona.
Eu acho que este evento vai ser, ao longo dos tempos, melhorado e potenciado. E espero que seja cada vez mais um marco, que já não é só local, regional, mas que já é um marco nacional, e muito internacional, pois fala-se aqui de escritores espanhóis, brasileiros ou nórdicos. Isto faz deste evento algo muito sério e temos que ir alimentando este projeto que é muito bonito e interessante, que vai ao encontro de uma necessidade que é a cultura no interior. É assim que os projetos devem nascer, ou seja, sem muita pretensão, sempre com vontade de fazer qualquer coisa útil, mas deixá-la crescer naturalmente.

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