CERNACHE DO BONJARDIM: Maria da Conceição – Uma vida que pulsa aos 105 anos

Partiu uma perna e está a recuperar na UCC de Cernache do Bonjardim. Depois de conseguir voltar a andar, espera ainda voltar à sua casa para cuidar do seu filho mais velho, agora com cerca de 80 anos.

CERNACHE DO BONJARDIM: Maria da Conceição – Uma vida que pulsa aos 105 anos

Maria da Conceição Lopes é da Codiceira, concelho da Sertã e assinalou no passado dia 28 de fevereiro 105 anos de vida.
Com uma história de vida semelhante à das pessoas de há um século atrás, a sua só difere no seu estado de espírito e de saúde. Com uma invejável memória e uma displicência na voz, recebeu a reportagem da Rádio Condestável com um ânimo e uma disposição nada vulgares, tal como invulgar é a sua saúde e vontade de trabalhar. Só parou porque há uns meses partiu uma perna e está a recuperar na Unidade de Cuidados Continuados (UCC), valência do Centro Social S. Nuno de Santa Maria, em Cernache do Bonjardim.
Na família “toda a gente morreu nova” e por muito que viva, Maria da Conceição não consegue explicar porque chegou aos 105 anos, talvez porque Deus tenha determinado: “se trabalhaste muito, agora vais viver para sempre”, começa por dizer. Consciente das palavras que diz, acha também que já chega de dar trabalho aos outros pois “quando chegamos a uma certa idade aborrecemo-nos por tudo e as pessoas também se aborrecem connosco”, nota. Mas se uns são assim, difíceis de aturar, no seu caso acha que não é. Dá tudo por bem feito e mesmo que não goste de algo, diz que gosta. Considera-se “uma pessoa diferente das outras”. Apesar disso, a sua vida não foi diferente das vidas de há um século atrás. Sabe-se que foram duras, difíceis e repletas de trabalho. “Não havia nada, nem escola”, explica, apontando o dedo a Salazar que, opina, “nunca quis saber da província. Não olhava à pobreza.”
Maria da Conceição sempre respeitou os pais que tudo fizeram para dar o sustento aos seus. O pai morreu-lhe cedo, de cancro. Recorda que olhou por ele até ao fim dos seus dias. A mãe, no fim da vida foi viver consigo, pois “sempre me disse para eu não a mandar para a mitra (atualmente os lares) e eu não mandei”, vinca.
Em nova foi para Lisboa. Não sabe muito bem com que idade, apenas que foi para uma casa particular, para cozinhar, “e gostava muito de cozinhar”, garante. Quando pensou em casar regressou à terra. Casou com 32 anos e teve dois filhos homens. Sempre gostou muito deles mas confessa que também queria ter tido uma filha. “Para a mãe é diferente. Mas não tenho sido maltratada. Tenho dois filhos amorosos”, sustenta, desejando voltar em breve para casa. Lá, “até posso nem fazer nada” mas, casa que é nossa, não tem substituição possível. É lá que estão as recordações, é lá que está a história da nossa vida. “Gostava de estar na minha casa, olhar por ela. Volta e meia ia ver as gavetas onde tenho os meus bordados e as minhas rendas”, descreve, questionando-se sobre o que vai acontecer aos seus trabalhos manuais quando morrer. Faz-lhe pena se forem para o lixo, confessa, recordando que “gostava muito de bordar a cheio. Fazia rendas com linha 80, depois já ultimamente era número 12”. As colchas que fez para os filhos são iguais, as que fez para os cinco netos estão entregues. Das agulhas só as recordações, a falta de visão e de sensibilidade nos dedos já não lhe permitem fazer trabalhos manuais.

Por muitas voltas que dê ao discurso, Maria da Conceição, regressa várias vezes à época de Salazar e do 25 de Abril. “Isto mudou tudo. Até as províncias já parecem outras, tudo fez casas novas. É diferente”, diz. Os tempos trouxeram o desenvolvimento e com ele também a desertificação. As escolas encerraram por falta de crianças e na Codiceira também aconteceu. “Na minha terra não há escola. Dantes havia muitos garotos”, lembra. Maria da Conceição só teve dois filhos, havia quem tivesse mais mas nos dias de hoje a norma é um, dois ou, como diz, “se chegarem aos três é porque há azar. Por esse motivo as aldeias foram ficando desertas de crianças”. As escolas das sedes de concelho começaram a recebê-las e estes estabelecimentos fecharam nas pequenas aldeias. Aconteceu o mesmo na Codiceira.
Os tempos são agora diferentes, nuns casos para melhor mas, no aspeto de convívio e de entreajuda, dantes era melhor, havia mais honestidade e união. “Eu gostava mais de antes. Agora cada uma caça com seu cão”, sublinha. Sabe-se que os tempos antigos eram pobres mas, porque na ocasião também não havia termo de comparação, todos viviam bem e satisfeitos, recorda. As ruas eram cheias de mato, para a horta, hoje? A câmara tratou de as arranjar depois do 25 de Abril. Na rua hoje não há moitas “mas ervas há muitas que precisam de ser arrancadas”, atenta.
Neste tempo de vida muitas modas se passaram e Maria da Conceição recorda como eram os casamentos, primeiro o da sua mãe em que as mulheres iam “com um lenço branco na cabeça e um xaile. Fazia-se um almocito bom”, depois o seu, com fatos mais claros, vestidos compridos, com mangas até aqui”, refere, apontando para o cotovelo. Agora “já não vão vestidas, vão com as costas todas à mostra”, subestima. O seu vestido, lembra, era creme mas “queimei-o antes que alguém o fizesse”, revela, considerando que já ninguém o ia querer.
Outra das diferenças do antigamente para os dias mais recentes era a alimentação das crianças. “Não havia leite como agora. Comprava-se uma lata de leite. Torrava-se farinha de trigo no forno, ficava escura e depois misturava-se o leite”, foca, lembrando que os filhos gostavam.
Depois do 25 de Abril, “tudo melhorou. Se não podem trabalhar dão-lhe a reforma. Dantes não havia. O Salazar não era grande coisa. Dizem que deixou os cofres cheios, mas para quê?”, pergunta-se.
Os tempos atuais são de pandemia. À Rádio Condestável recorda outras doenças, para si, tão ou mais perigosas que o coronavírus, como por exemplo as bexigas ou o sarampo. “Isto é a mesma coisa, é uma gripe tão forte que as pessoas se vão embora”, continua.
Os dias vão-se passando, agora a recuperar para ver se ainda regressa à sua casa onde está o filho mais velho com cerca de 80 anos. Antes de ter partido a perna cuidava dele, “passava-lhe as camisas, fazia-lhe as refeições, agora ele tem que se desenrascar”, diz, encolhendo os ombros e demonstrando pena por não estar perto dos filhos. Como diz, “ao pé deles sentia-me feliz. Dei-lhes uma educação muito bonita”, revive com um ar de quem ainda se lembra do gosto dos doces que fazia. Lembra-se Maria da Conceição e lembram-se os netos que, “quando lá iam (à Codiceira visitá-la) eu fazia sempre o almoço e os meus netos adoravam o arroz doce, o bolo de bolacha”.
Tão depressa as pernas possam aguentar com o seu corpo, Maria da Conceição ainda espera voltar a casa, para o seu ninho, para aquele onde criou os filhos, os quais ainda espera abraçar e voltar a poder cuidar.

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