SERTÃ/Covid-19: A pandemia na voz de quem lhe dá a voz

À semelhança de outros setores da sociedade, também a Rádio Condestável sofreu mudanças com a pandemia da Covid-19.

SERTÃ/Covid-19: A pandemia na voz de quem lhe dá a voz

Ao longo dos últimos três meses, a Rádio Condestável e o Município da Sertã uniram esforços e promoveram o programa “Todos juntos no combate à pandemia”. Porque a informação é fundamental em momentos de crise, o programa assumiu como missão contribuir para uma sociedade mais informada e constituiu-se num instrumento de contenção da propagação do vírus.
Depois de auscultados diversos representantes das mais diversas áreas da sociedade, hoje a voz é daqueles que todos os dias dão a voz à população. Carlos Ribeiro, Luís Biscaia e Fernanda Branco, respetivamente, diretor, jornalista e locutora da Rádio Condestável, dão a perceber que mudança trouxe a pandemia.

Neste sentido, Carlos Ribeiro, começa por falar na readaptação da estratégia comercial. “Inicialmente tivemos uma quebra em termos económicos, em que alguns clientes desistiram, temporariamente, da publicidade que tinham no ar, contudo temos tentado encontrar novas formas de receita”, diz, exemplificando com os diretos feitos a partir de espetáculos e concertos, “uma forma de compensar as perdas”, nota. Se no primeiro confinamento houve suspensão de publicidades, o mesmo não se verificou neste segundo confinamento. A quebra, apesar de ser temporária “fez-nos pensar muito. Talvez como nunca, e a pensar que o futuro pode ser diferente”, confirma, confessando algum receio inicial e por isso foram implementadas medidas novas, como as já referidas e outras como a limitação de horário dos funcionários “para que não estivéssemos muito tempo juntos”, refere, salvaguardando que a rádio não recorreu ao layoff.
Os desafios que eram colocados antes da pandemia foram agora “exacerbados e acelerados”, concorda Carlos Ribeiro e prova disso é que “a Rádio Condestável está a preparar-se, cada vez mais, para o digital em várias vertentes”, no entanto, ainda não se sabe como será possível “transformar os conteúdos que se colocam na internet e rentabilizá-los”, havendo assim necessidade de aplicar mudanças na gestão de negócio, reforçando que “está por descobrir como colocar conteúdos online e daí retirar a devida rentabilidade”.
A facilidade de escrever e dizer tudo nas redes sociais obriga a um esforço redobrado ao jornalista que tem que perceber o que interessa e o que não interessa, o que é ou não verdade. “As notícias correm mais depressa mas, às vezes, não correm bem”, começa por explicar, acreditando que muitas são fake news e aqui, nesta rádio de proximidade “não vamos atrás disso. Podemos ver e servir de primeiro indicador mas raramente nos serve de fonte pois são situações que depois complementamos com outra informação, ouvindo outras fontes. É assim que se faz informação como deve ser”, sublinha, ciente de que “um jornalista não produz fake news” pois, se citar as fontes nunca produz uma notícia falsa.
Semanalmente a Rádio Condestável transmite um programa de debate. Antes da pandemia os comentadores estavam em estúdio, mas com a implementação das medidas de contingência, esses debates passaram a ser feitos online e a grande maioria das entrevistas foi e está a ser gravada por telefone. Medidas que também protegeram quem trabalha no interior da rádio, cuja direção tomou várias precauções para evitar que o vírus entrasse, nomeadamente a mudança de horários por forma a que menos pessoas se cruzassem durante o dia, a distribuição e utilização de máscara, a desinfeção constante das mãos, a medição regular da temperatura e o distanciamento físico tanto quanto possível. Foi também definida uma sala de confinamento para o caso de uma possível infeção e elaborado um sistema de circulação do ar. Com o repórter de exterior existe o cuidado de utilizar uma máscara diferente e mais protetora. “Tentamos prevenir, e até ao momento, apenas houve duas ameaças, mas ninguém ficou infetado”, conta o responsável.
Nesta pandemia, e sobre o que é o dia-a-dia de uma rádio ficam muitas lições nas áreas informativa e de gestão financeira e por isso, mas sem levantar muito o véu do que aí vem, Carlos Ribeiro afirma que “a Condestável está a adaptar-se e a tentar encontrar novas formas de viver que irão compensar a vivência do tradicional spot (anúncio de rádio)”.
Sendo a rádio local um órgão de proximidade, Carlos Ribeiro garante que esta proximidade aumentou com a pandemia. “Um confinamento obriga a estar fechado em casa e tem que haver várias formas de companhia e porque na televisão as imagens eram sempre as mesmas, houve muita gente que se virou para a rádio”, sublinha.

Luís Biscaia é um dos jornalistas da Condestável. Gerir informação quando só se fala de Codid-19 é tarefa hercúlea. Maioritariamente repórter de exterior, sentiu e ainda sente receio do desconhecido quando sai em reportagem, apesar de, nesta altura, serem em menor número. Ainda assim, “sempre que saiu, é com receio e quando se regressa, faz-se o filme de onde, eventualmente, se falhou e se pode ter ficado infetado”, diz, lembrando que na nossa região, a covid começou em grande com a notícia de que numa reportagem de exterior, tinha estado presente uma pessoa que depois testou positivo. Foi uma “experiência que vai ficar para a história”, reconhece o jornalista. Nessa reportagem, em Vila de Rei, de sensibilização rodoviária, marcou presença a maior parte dos presidentes de câmara e das juntas de freguesia da região e muitos militares da GNR. “Quando se soube que o então Comandante do Destacamento Territorial da Sertã da GNR tinha testado positivo comunicaram-me imediatamente para ficar em isolamento, o qual cumpri durante 14 dias, confinado num quarto”, lembra. Foram dias duros, principalmente no final. Entre outras medidas de distração “e porque já não podia estar sentado ou deitado, criei um circuito, dentro do quarto de 44 passos. Durante meia hora fazia aquele circuito para tentar aliviar a mente e o corpo”, ilustra. Apesar desta ameaça e de outra ocorrida mais tarde, nunca ficou infetado. A notícia de ter teste negativo foi um alívio para o corpo mas nunca o foi para a mente, mesmo porque os efeitos psicológicos de ter estado em confinamento ainda prevaleceram durante algum tempo. “Quando começaram a surgir os casos aqui à volta, eu começava logo a sentir que me doía a garganta e que tinha febre”, explica.
Entre o início da pandemia e o dia de hoje, os cuidados foram-se redobrando. “No início não havia grande preocupação mas quando se começou a falar que o vírus estava aqui (Sertã), já foi diferente. Quando os números começaram a subir, começámos a ter mais a noção da realidade”, confessa, recordando que, além da família da rádio, também existe a família em casa. Fazer o equilíbrio e a gestão entre estas duas situações nem sempre é fácil, até porque “o jornalismo não confinou, mas nós, enquanto pessoas, sentimo-nos confinados. A partir daí, os contactos mais supérfluos, evitei, tal como as idas ao café, por exemplo”, esclarece.

No contexto de pandemia, as maiores dificuldades sentidas foram mesmo, “falar presencialmente com as pessoas, ir aos eventos, ir aos outros concelhos, sentir o pulsar das iniciativas ao vivo. Só falar ao telefone e só falar de covid, como ainda acontece, é estranho e cansativo”, reconhece, exemplificando com a chegada diária dos dados da covid-19 na região, pois, “estar todos os dias a dizer a mesma coisa aos ouvintes e leitores mas por palavras diferentes, é complicado”, tal como chegar a casa, depois de um dia a falar de covid e ainda ver notícias que só falam do vírus. “Quando chego a casa e vejo televisão, os primeiros 30 minutos, mais ou menos, sintonizo em canais que não estão a dar notícias e aos fins-de-semana procuro outras temáticas”, exemplifica, desabafando que, desligar deste tipo de fadiga pandémica, “é praticamente impossível pois também temos que perceber como é que as coisas estão a evoluir e o que é que está a acontecer para bem informar”. Estando a RC inserida numa região com diferenças entre concelhos, houve a preocupação de “uniformizar e sistematizar a informação para que percebam do que estamos a falar”, confirma. Em termos de comunicação, a pandemia veio mostrar que “há pessoas que estão a comunicar muito bem para evitar o pânico ou o ‘diz que disse’”, explica, confessando que, enquanto jornalista nunca sentiu dificuldade em obter uma reação do outro lado da linha sobre o tema da pandemia, mas sentiu vontade de “um dia não ter que falar da pandemia nos noticiários, mas como não há outra notícia, outro acontecimento, temos que recorrer à covid”.

Se é verdade que a RC é uma rádio de proximidade, também é verdade que faz parte da família de muitos ouvintes. Neste tempo de isolamento foi também confidente e companheira. Fernanda Branco é uma das animadoras desta estação. Atrás do microfone, sentiu as emoções do outro lado da linha em que “as pessoas estavam ainda mais ávidas para falar connosco, ou seja eu, o Hugo Rafael, a Maria do Rosário e o José Carlos Reis, que fazemos os discos pedidos. Havia uma ânsia em partilharem os seus medos e os receios. Não sabiam o que se passava. Era como se lhes estivessem a tirar o ar, pois estavam habituadas a andar na rua, a ter o dedo de conversa habitual com o vizinho”, diz, acreditando que “as pessoas se sentiram privadas da sua liberdade e sufocadas no seu dia-a-dia. Apesar de poderem falar ao telefone, notava-se o impacto psicológico de se sentirem privados de estar cara a cara com alguém e de sentirem que alguém lhes estava a dar uma ordem”.

Deu conselhos e motivou os dias mais complicados de medo, de ansiedade e de privação dos filhos e netos, naquilo que define de uma “primeira longa fase” em que a negação dos acontecimentos foi notória. Diziam que “não podia ser verdade, questionavam-se que já tinham passado por tanto e que agora ainda tinham que passar por isto”, exemplifica, dando conhecimento de uma ouvinte que “quase chorou ao telefone a lamentar que não tinha a casa cheia como costumava ter todos os domingos. Isto tem um impacto muito pouco salutar na vida das pessoas”, observa. Esta fase passou mas veio outra, a do descrédito e da desconfiança em relação à vacina e atrás do microfone “vamos tentando explicar a realidade das coisas e isso aumenta ainda mais a nossa responsabilidade dentro da rádio. A nossa função foi ainda mais reforçada pois a nossa disponibilidade e capacidade de conseguir explicar às pessoas tinha que ser ainda maior”, explica, e não querendo substituir-se à família desses participantes “sentimo-nos parte dela. Se não existir este fator de humanidade, não faz sentido estarmos deste lado”.
Viver estas situações diariamente acarreta uma grande carga para o locutor. Sair da rádio ao fim do dia e desligar a ficha de determinadas situações “não é fácil”, admite, lembrando, por exemplo “ouvintes que já partiram. São pessoas que vão saindo de cena. Há histórias e pessoas que ficam e que têm que ficar”, vinca. Mas nesta equação entre o profissional e a pessoa, tem que haver uma distinção. “Ao microfone as emoções têm que ser retraídas. Sinto que perdi aquela voz que brincava comigo todos os dias, mas isso é meu, é pessoal. Nós temos de passar a mensagem de que está tudo bem, amanhã haverá sol outra vez. Se não fizermos o trabalho assim, será mais complicado, mesmo para quem nos ouve”, finaliza.

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