SERTÃ/Covid-19: Os dias instáveis de uma pandemia de emoções

“Tive dias em que recebi 80 chamadas de telemóvel” – Ercília Silva, enfermeira chefe no Centro de Saúde da Sertã

SERTÃ/Covid-19: Os dias instáveis de uma pandemia de emoções

A inconstância dos dias mantém-se desde há um ano a esta parte. O vírus da Covid-19 veio alterar a vida de toda a gente e mudar muitos comportamentos. Todos os setores da sociedade o sentiram, encararam e enfrentaram, cada um à sua maneira.
Ercília Silva, enfermeira chefe no Centro de Saúde da Sertã (CSS), retrata ao programa da Rádio Condestável que conta com o apoio do Município da Sertã, “Todos juntos no combate à pandemia”, que estes tempos têm sido geridos com “muita angústia, cansaço, preocupação e muitas noites sem dormir. A querer satisfazer tudo e todos e a não conseguir, abdicando da vida pessoal, do descanso, do básico”. São tempos diferentes, que também fazem a diferença na forma como se gere e motiva uma equipa que todos os dias trabalha para os outros. A de Ercília “é excecional”, garante, exprimindo o seu “orgulho de fazer parte dela e de a gerir”. Enfermeiros, assistentes operacionais e médicos: coloca-os todos no mesmo nível de profissionalismo e são eles que nos momentos piores desta pandemia, “não me deixam cair. Nunca fazem nada à revelia, estamos sempre a pensar nos nossos utentes e sempre a puxar uns pelos outros. Somos muito unidos. Sempre fomos. E vamos continuar a ser assim”, espera.
É certo que a pandemia ocupou a maior parte das vidas mas há aspetos, à margem da Covid, que têm que continuar a ser atendidos. Ercília Silva dá conta que, apesar de existir a doença, o centro de saúde não pode parar de atender outras patologias. “Atualmente, para estarmos aqui no processo de vacinação (quartel dos Bombeiros Voluntários da Sertã), os nossos outros colegas têm que estar a garantir o trabalho que estaríamos a fazer no centro de saúde”, diz, reforçando a união existente. “Não estamos lá, mas o serviço continua a ser feito da mesma forma, garantindo aos utentes a prestação dos cuidados que eles necessitam. Estamos todos no mesmo barco”, reforça.

Nunca os dias foram iguais neste contexto de pandemia. São instáveis, inconstantes. Trazem incertezas diversas e “aprendemos todos os dias, ao mesmo tempo, e todos os dias temos dúvidas”, explica, no entanto, e para que tudo funcione devidamente “impera o diálogo”, atesta. Sabe-se que este vírus “é uma incógnita para todos e não acabou, ao contrário do que se pensa”, alerta a enfermeira tendo em conta o comportamento das pessoas neste desconfinamento. Se no início era o medo, agora “as pessoas parece que estavam ávidas de vir para a rua, apesar de terem sido feitos vários alertas para terem cuidados. Aqui, na vacinação, também alertamos para continuarem a ter cuidados, para colocarem a máscara e para manterem o distanciamento, mas as pessoas estão cansadas de estar em casa, e nós, de não estar em casa”, observa.
Os tempos mudaram e, sendo o homem um ser de afetos, a falta de abraços, da proximidade, os sorrisos escondidos debaixo da máscara, têm afetado toda a gente e estes profissionais, que devem ser exemplo, não são exceção. O facto de não se poder estar com os amigos, de almoçar, jantar com a família ou de ir a uma esplanada, de desabafar com um amigo pessoalmente, isola-os do mundo, de si próprios. Esta tem sido uma equação difícil de gerir. Espera-se o fim desta pandemia, mas na opinião de Ercília Silva, “nunca mais a nossa vida vai voltar a ser igual ao que era antes”.
Nestes tempos de mudança, também as adaptações são constantes, principalmente às diretrizes internas que chegam quase diariamente e que mudam, em alguns dias, diversas vezes ao dia “e nós temos que estar em constante adaptação e depois em constante adaptação connosco próprios”, retrata, confessando alguma “tristeza” por ver “tanto esforço para, na fase atual, conseguir vacinar toda a gente e depois na segunda fase do desconfinamento passa-se nas ruas vêem-se as pessoas a agir como se isto não existisse. Parece um esforço inglório”, sustenta.
Atualmente o concelho da Sertã não regista qualquer caso ativo de infeção por Covid-19, mas nem sempre foi assim. O concelho chegou a ultrapassar os 200 casos ativos num dia. Esses foram os tempos mais complicados. “Vivíamos noites inteiras sem dormir a ver testes. Eu passei noites preocupada com os lares de idosos, a ver testes e resultados. Havia pessoas a ligar constantemente para saberem se estavam positivos ou negativos, ou se podiam fazer testes. Bombardeavam-nos de todo o lado. Tive dias em que recebi 80 chamadas de telemóvel e não sabia quem era nem a quem estava a responder, e ainda hoje não sei. São pessoas sem rosto para mim mas precisavam de uma resposta, de uma palavra, de um apoio, e foi isso que tentámos dar”, explica, ciente de que “provavelmente não agradámos a todos, não conseguimos chegar a todos mas tentámos chegar o mais longe possível”, diz.

No CSS houve apenas três casos de infeção entre auxiliares, enfermeiros e médicos, mas os tempos foram de medo. “200 casos numa vila como esta aterroriza”, sublinha. Hoje o concelho não regista qualquer caso mas Ercília Silva recusa entrar em euforias. Sente que este é “apenas mais um passo e não se sabe o dia de amanhã”. “Chegámos a estes números (cerca de 200) e depois veio o confinamento. As pessoas passaram a ter regras, mas agora voltam a não ter”, analisa, com receio de voltar a escutar, através do telefone, “ eu estive com… eu estive com… Tenho muito medo que esse ‘estive com’ volte a repetir-se, tenho medo que aquelas filas de carros em redor do centro de saúde voltem e que eu volte a ter que ir à frente do terminal rodoviário perguntar os nomes das pessoas para ajudar os meus colegas”, sublinha. Por outro lado, existe também a esperança que a contenção que se verificou na Páscoa resulte na continuidade destes dias sem casos.
A terminar, a enfermeira chefe do centro de saúde pede às pessoas para “não se esquecerem que isto não acabou e que, se calhar nunca vai acabar e que vão ter que moldar as suas vidas de uma forma diferente daquela que estavam habituadas”. Repete aquilo que considera que “já ninguém ouve”, mas pede que “usem máscara, lavem e desinfetem frequentemente as mãos e tenham todos os cuidados que são tão simples e que podem salvar vidas”.

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