SERTÃ/Covid-19: Sobrevivente só quer voltar a abraçar os seus

Custódia Figueiredo é utente da Casa da Poesia em Cernache do Bonjardim. Aos 85 anos de idade sentiu o vírus no corpo e na alma quando o contraiu e teve que ficar ainda mais isolada, confinada durante muitos dias num quarto que nunca foi o seu. Pensou que “ía desta para melhor.”.

SERTÃ/Covid-19: Sobrevivente só quer voltar a abraçar os seus

No dicionário de língua portuguesa, mulher, escreve-se com letra minúscula mas a que se refere a Custódia Figueiredo, bem que poderia ser escrita em maiúscula. Após uma vida dura de trabalho, ainda teve que lidar com o vírus da Covid-19. Sente-o no afastamento imposto pelas autoridades de saúde, na necessidade de afeto físico e na visita presencial dos filhos e dos netos, nas saídas aos fins-de-semana para estar com os seus.
Desde 2011 que é utente da Casa da Poesia, valência do Centro Social S. Nuno de Santa Maria, de Cernache do Bonjardim. É natural do Troviscal, freguesia do concelho da Sertã. Às costas tem uma longa vida de trabalho e no olhar, uma sensibilidade que toca todos os que a rodeiam. Ao programa da Rádio Condestável “Todos juntos no combate à pandemia”, esta mulher recorda que trabalhou no campo e na agricultura. Lembra-nos assim “uma vida dura” em que também criou cinco filhos, após a morte prematura do marido aos 42 anos de idade. Custódia tinha 38. Quando o marido faleceu, o filho mais novo tinha um ano e quatro meses e o mais velho tinha 15. A idade já lhe permitia ajudar nas tarefas diárias e foi um dos braços direitos da mãe. A somar a todas as tarefas, “ainda fiquei a cuidar dos pais dele”, relembra.
Poder-se-ia dizer que foi uma mulher de armas mas Custódia, num sussurro quase impercetível, reforça apenas que foi “uma vida de sacrifício”, até porque “naquela altura não havia nada”, diz.
A vida era pobre e “a melhor alegria que Deus me deu foi ter tido os meus filhos, sãos e escorreitos”, nota. Esses hão-de encher-lhe eternamente a alma e o coração de boas recordações e quando a saúde lhe faltou, foram eles que cuidaram de si. “Primeiro ajudei-os eu, agora ajudam-me eles”, confirma.
A sua estadia na Casa da Poesia completa este 2021, 10 anos de permanência. Estar ali “é ótimo”, diz, mas “não é como na nossa casa. Lá voltamo-nos para onde queremos”, ilustra.
Custódia Figueiredo nunca passou por nenhuma crise de saúde pública, com exceção da atual. Sabe bem o que é o vírus da Covid-19, “também o tive e foi um bocado duro, perdi o apetite. Estava ali na sala e comecei a tossir, a tossir. Fiz o teste e pronto (estava infetada)”, descreveu. Nunca pensou ter ficado como ficou. Foram dias dolorosos, desde o dia 10 de janeiro até ao dia 8 de fevereiro, quer pela doença, quer pela forma como passou a ser o tratamento pessoal. “Custou um pouco ver as pessoas a fugir de nós. Pensava já que era desta vez”, lembra e por isso esta mulher ganhou “uma alma nova” quando lhe disseram que já podia sair do isolamento.
O vírus alterou as rotinas todas e para as pessoas institucionalizadas foram cortadas as visitas presenciais. Custódia aceitou e compreendeu, mas prefere não pensar nisso. Faz-lhe falta a liberdade, o calor da presença, o conforto de um abraço. “Tanto que gostava de ter os meus netos ao colo, mas temos que fugir deles”, explica, confessando que lhe custa nunca mais tê-los abraçado e sair com a família ao fim de semana e nas datas festivas. Agora só quer que tudo volte ao normal. Na experiência que tem da vida, sabe que “este vírus não é para brincadeiras” e por isso deixa um conselho a todas as pessoas para que se “acautelem, usem as máscaras e os desinfetantes e que tenham cuidado. Isto não chegaria a tanto se tivesse havido mais cuidado. Há pessoas que abusam com coisas sérias”, remata em jeito de chamada de atenção.
Toldam-se os olhos de lágrimas quando fala dos seus, enche-se o peito de calor quando pensa na altura em que voltará a estar presencialmente com a família. Espera ansiosamente que a vacina traga o milagre da liberdade.
De referir que o “Todos juntos no combate à pandemia” conta com o apoio da Câmara Municipal da Sertã.

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