A nossa ambição

Não há fórum, reunião ou conferência na qual não se ouçam queixas da falta de investimento público nas mais diversas regiões do país. Todos criticam o investimento económico demasiado centralizado em detrimento das outras zonas, quase sempre carenciadas.

A nossa ambição
Jorge Coluna

Jorge Coluna

Militante do PSD e Vereador pelo mesmo partido no executivo sertaginense

Não há fórum, reunião ou conferência na qual não se ouçam queixas da falta de investimento público nas mais diversas regiões do país. Todos criticam o investimento económico demasiado centralizado em detrimento das outras zonas, quase sempre carenciadas.

O norte queixa-se do sul, o interior do litoral, as aldeias das cidades. E todos têm razão.
A atitude de todos os governantes é darem alguma primazia a algumas regiões com mais população e por isso acentuam-se ainda mais os desequilíbrios territoriais.
Para atenuar alguns destes “vícios” de gestão territorial, têm surgido alguns instrumentos que procuram contrariar essas políticas, quer a nível local quer a nível nacional.
Existem os mais variados estudos, são apresentadas as mais completas soluções e toda a comunidade tem a sua visão mais ou menos estruturada para a resolução dos seus problemas, mas não se passa da “cepa torta”.
Também no concelho da Sertã essa política de centralismo se instalou, talvez não deliberadamente, não de forma rápida, mas está a ser implementada.

Dou alguns exemplos que contribuíram para este centralismo:
- Na saúde, investimento público de valores consideráveis num centro de saúde na sede de concelho, mas sem ser acompanhado com a instalação de mais valências médicas e por isso com pouca capacidade de intervenção para casos mais complicados. Para “adoçar” ainda se permite gabinetes de atendimento mais próximos das pessoas. Um destes dias arranjam transportes gratuitos para “obrigar” as pessoas a irem ao centro de saúde terem a sua consulta.
- Na educação, foram eliminadas quase todas as escolas primárias do concelho que existiam há algumas décadas. Não tem havido investimento nas estruturas escolares em localidades fora da sede do concelho que evitariam a concentração de alunos nos edifícios escolares da vila da Sertã a muito provável existência de vários problemas sociais e sobretudo o sacrificante fluxo, diário de jovens e crianças, que nos dias mais curtos começa de madrugada e termina já noite dentro. Mas não ficarei minimamente surpreendido que à mínima oportunidade irão aumentar a capacidade da escola da Sertã e fecham tudo que ainda existe no concelho. 

Todos nos lembramos que a ideia de criar uma zona industrial da Sertã nos anos 90, foi a de retirar de dentro da vila os negócios que tinham algumas características que já estavam a contribuir para degradação da qualidade de vida.
É verdade que nessa época essa solução foi muito bem conseguida, pois com a retirada dessas actividades de dentro da vila conseguiu-se uma melhor harmonia vivencial e territorial.
Mas passados estes anos, a ideia dos decisores políticos devia ser a de criar condições em outras zonas do concelho e incentivar a instalação de novas empresas noutros locais. Como por exemplo em Cernache do Bonjardim, onde já há infra-estruturas planeadas e legalizadas, ou apoiar iniciativas empresariais na Cumeada e ou as intenções de criar uma zona específica em Pedrogão Pequeno.
É minha opinião que se deveria incentivar a criação de outras zonas para instalação de empresas de pequena dimensão em outros locais do concelho. Vão pensar: “ sim muito bem, mas teríamos que investir em infra-estruturas básicas de apoio a essas zonas industriais.” Direi eu, “mas a criação dessas infra-estruturas também serviriam as localidades mais próximas e em alguns casos até já estão a ser bem necessárias”.
Continua-se a concentrar o investimento na Sertã e já temos os primeiros problemas dessa política centralista que é a poluição.
- A concentração de investimento público na sede de concelho, nem sempre é justa, pois se surge a oportunidade de construir um edifício de uma qualquer valência pública, como um jardim, piscina ou biblioteca é na Sertã que se pensa primeiro, algumas vezes sem critério aparente. Fui e sou contra por exemplo à ideia de construir uma nova e maior biblioteca na vila da Sertã, quando se construiu uma de raiz há poucos anos. Quem dá vida a uma biblioteca são as pessoas. Não é mais espaço, mais funcionários de apoio que vai contribuir para melhorar o acesso à cultura no concelho. Deveremos diversificar e intensificar a oferta pelo território concelhio e aproveitar o enorme sucesso que algumas iniciativas têm obtido até agora.

Esta concentração de investimento público e de serviços na vila da Sertã, já tem consequências por exemplo na decisão das famílias decidirem residir nessa vila. Terem tudo ao pé de casa é um conforto, mas as pessoas das outras freguesias também não merecem ter as mesmas oportunidades?
As consequências são evidentes. Por exemplo, o mercado imobiliário na vila da Sertã é dinâmico, mas a procura já excede a oferta o que elevou os preços de compra ou arrendamento, e no resto do concelho temos habitações novas por vender ou alugar.
Enquanto não houver decisores políticos que vejam que o concelho deverá evoluir de uma forma equilibrada e façam uma distribuição justa dos dinheiros públicos por todo o território, nunca iremos voltar a ser um concelho liderante como era antigamente. É que a liderança política é directamente proporcional à liderança concelhia, como o tempo tem demonstrado e uma realidade bem patente sobretudo na zona do pinhal.
A Sertã está preparada para ser cidade, mas todo o concelho da Sertã também deverá estar preparado.

A nossa ambição deverá ser essa.

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