REGIÃO/Seca: Baixo nível de água nas barragens preocupa autarcas

O Parlamento Europeu debate problema de seca em Portugal na próxima semana. Os concelhos da Sertã, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei e Pedrógão Grande estão preocupados e alguns já estão a implementar medidas para poupar água. Caso não chova e os níveis das barragens não sejam repostos, no setor do turismo antecipam-se algumas dificuldades.

REGIÃO/Seca: Baixo nível de água nas barragens preocupa autarcas

A discussão sobre a seca em Portugal na sessão plenária do Parlamento Europeu (PE) foi solicitada com urgência pela delegação do PSD.
O Parlamento Europeu (PE) incluiu na agenda da sessão plenária da próxima semana uma discussão sobre a seca na Península Ibérica, depois de a delegação do PSD ter solicitado um debate de urgência sobre a situação em Portugal.
A decisão de agendar um debate sobre a "seca e outros fenómenos meteorológicos extremos na Península Ibérica e outras partes da Europa" foi tomada na Conferência de Presidentes do PE esta quarta-feira, depois de o Partido Popular Europeu (PPE) ter apoiado na véspera a solicitação da delegação social-democrata, apresentada no grupo de trabalho para a agricultura.
O debate no hemiciclo, que contará com a participação da Comissão Europeia, deverá realizar-se dia 17 de manhã, indicaram à Lusa fontes parlamentares.

Membro da Comissão Parlamentar de Agricultura, o deputado Álvaro Amaro, do PSD, justificou na véspera o pedido de realização de um debate de emergência com a situação "dramática" que se vive atualmente em Portugal, onde, apontou, "quase metade do território (45%) sofre de seca extrema ou severa".
"O resto do território está sob seca moderada, o que significa que nenhuma parte de Portugal está livre de seca. Há 17 anos que não havia tanta zona do país em seca grave nesta altura do ano", alegou.
O novo chefe da delegação do PSD, José Manuel Fernandes, já antecipou algumas questões que deverão ser colocadas à Comissão durante o debate em plenária.
"Perante este cenário assustador, Portugal e a Europa precisam de ter uma resposta da Comissão Europeia. O que pretende a Comissão fazer? Que medidas e mecanismos extraordinários irá ativar para responder a esta emergência?", questiona.


Município da Sertã dá exemplo na poupança de água

O concelho da Sertã é banhado por três albufeiras, nomeadamente Castelo de Bode, Cabril e Bouçã. Sem querer encontrar um culpado para esta situação, Carlos Miranda, presidente da Câmara Municipal da Sertã diz que a prevenção é sempre o melhor caminho e a autarquia tem vindo a sensibilizar a população para poupar água, sendo que “optámos por não ligar sistemas de rega nos jardins municipais, na tentativa de dar o exemplo à população, já que todos temos que contribuir para a poupança de água”, disse.

Entretanto dados lançados pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), face a medidas que foram tomadas, indicam que a barragem do Cabril, no rio Zêzere, recuperou quatro metros. Em Castelo de Bode, também no rio Zêzere, não houve recuperação do volume de água, mas verifica-se "estabilidade". Ainda assim há que ter, “por parte das autoridades que gerem as albufeiras, uma gestão adequada destes recursos, capaz de prevenir atempadamente estas situações”, notou.
Carlos Miranda considera que Portugal tem que se preocupar com esta situação pois as alterações climáticas estão aí e há que “começar a pensar numa gestão da nossa rede de rios e barragens e, talvez, num projeto de transvazes pois custa ver que, em certas épocas do ano, em que há chuva em abundância, temos água a correr para o mar sem qualquer proveito e depois temos épocas em que, em certas regiões do país, temos albufeiras vazias”, ilustrou.
Sem albufeiras cheias não há projeto turístico que resista. O ser humano ainda não consegue inventar água e por isso há que criar hábitos e diferentes formas de consumo da mesma. O autarca espera que, na chegada do verão, a albufeira esteja reposta uma vez que “parte da economia local depende das albufeiras”, disse.
O presidente da câmara da Sertã lançou ainda o repto para que se proceda à limpeza das margens das albufeiras, como de resto, já aconteceu em Dornes, no concelho de Ferreira do Zêzere e voltará a acontecer, no mesmo concelho, na zona de Bairrada Bairradinha, no próximo sábado, 12 de fevereiro.

Ferreira do Zêzere mostra preocupação mas mantém o otimismo

Em Ferreira do Zêzere existe a consciência de que o período de seca que o país atravessa se deve essencialmente às alterações climáticas e que a escassez de água se deve à falta de chuva. O facto do país estar a trabalhar na descarbonização e de ter fechado duas centrais a carvão, obrigou à procura de outras formas de produção de energia. Bruno Gomes compreende esta situação e também que “o Governo esteja a tomar medidas para colmatar esta falta de energia que anteriormente era produzida por duas centrais”. Ciente de que é um problema que a região atravessa, prefere ver “o copo meio cheio e tenho esperança que, rapidamente o caudal seja restabelecido e termos um período de chuva para equilibrar esta situação, caso contrário, e apesar de querer que Ferreira seja um destino turístico o ano inteiro, o concelho sofrerá turisticamente, no verão, com o baixo caudal no Zêzere". “Acho que ainda não atravessamos um período crítico no turismo nesta altura, mas se chegarmos a maio com estas condições, é evidente que será prejudicial para o setor”, explicou, esperando, assim, que no referido mês já tenha chovido o suficiente para aumentar o nível das águas.

Vila de Rei aponta que esta situação se deveu a uma má gestão

A situação é preocupante e alguns municípios apontam que a situação se deveu a uma má gestão governamental. A falta de chuva está a provocar muita preocupação em vários setores da economia.
Ricardo Aires, presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei, considera que o governo não acautelou esta situação uma vez que já em dezembro se sabia que a precipitação iria ser baixa ou mesmo nula e que o inverno seria seco. “Automaticamente, sabendo que a Central do Pego iria fechar em novembro, alguém teria que produzir energia e foram as nossas albufeiras, no nosso caso, Castelo de Bode”, disse, considerando assim que “o governo atuou esta semana a restringir o consumo para agricultura e para produção de energia. Foi tarde. Já tínhamos falado com a APA pois estávamos a ver, todos os dias, a nossa captação a baixar. Estamos a atingir a cota de captação mínima”, explicou. Para o autarca vilarregense, “este foi um procedimento que devia ter sido feito antes”, disse, esperando que “comece a chover o mais depressa possível e que esta medida não tenha sido tomada tarde”.
Em Vila de Rei teme-se também que esta situação venha a afetar o turismo de verão e o autarca considera que o governo terá que ajudar estes territórios afetados e que “no verão vivem à conta da água destas barragens”. Quanto ao Cable Park “será quase impossível funcionar se o nível da água não subir. Em termos de praia fluvial poderá ser possível mas vai haver investimento municipal para que isso aconteça”, explicou. Visto que o nível da água está muito baixo, a rampa para os barcos está assente na terra e a câmara já pediu autorização para fazer um prolongamento da mesma.

Pedrógão Grande considera que medidas tomadas foram tardias

O território de Pedrógão Grande é abrangido pelas albufeiras da Bouçã e do Cabril. O baixo nível das águas também está a preocupar o presidente da câmara de Pedrógão Grande. António Lopes considera que para evitar esta situação, “a montante deveria ter havido alguma preocupação e as medidas foram tardias no sentido de terminar com a produção de eletricidade”. Esta situação também não será benéfica para “as estruturas que estão acopladas na albufeira, adstritas ao turismo e que sofrem consequências com a descida das águas”, disse, preocupado com o setor do turismo.
Esta situação pode vir a inviabilizar, para já, o andamento da candidatura do concelho como Estação Náutica e, “não havendo água na albufeira ou níveis muito reduzidos, vai-se tornar um fator que não vai promover o turismo e potenciação de receitas para o concelho”, alertou.
Quanto a consequências para o abastecimento de água à população, para já o autarca não prevê que haja necessidade de ocorrerem restrições, mas mostra-se preocupado com esta situação.

CIM Médio Tejo quer saber o que se está a passar

A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo também já se pronunciou sobre esta matéria e Anabela Freitas, sabendo que “as alterações climáticas existem", disse que "queremos perceber se o nível que a barragem (Castelo de Bode) apresenta neste momento, tem mais a ver com outras coisas do que com as alterações climáticas. Precisamos que nos informem: isto acontece por este conjunto de fatores”. A presidente considera ainda que “o recurso à água é algo que nos deve preocupar a todos e devem ser tomadas medidas a montante no sentido de preservação de massas de água, principalmente quando essa massa de água é usada para consumo humano para milhões de pessoas”, reforçou.

CIMRL avalia situação na próxima semana

A falta de água é um problema que preocupa os dez municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL), que começam a sentir os efeitos do aumento da frequência e severidade das secas, associado à diminuição da precipitação, pelo que no próximo dia 15 de fevereiro serão avaliadas medidas conjuntas.
Na primeira linha de preocupações, refere a comunidade em nota enviada à comunicação social, está a “diminuição da disponibilidade hídrica decorrente da redução da diminuição total, da precipitação nos últimos meses e do número de dias com precipitação, com efeitos nefastos ao nível das reservas de água e escassez de recursos hídricos para a atividade agrícola”.
Neste domínio, a CIMRL está a avaliar várias linhas de intervenção preventiva, que passam, entre outras, pelo “reforço de infraestruturas municipais de retenção de água para uso agroflorestal; a ampliação de soluções de armazenamento; a disseminação e sensibilização de cidadãos e demais stakeholders; o controlo de perdas reais e aparentes ao longo do processo de captação, adução e distribuição de água; e ainda medidas de melhoria das condições dos sistemas de recolha, armazenamento, distribuição e reutilização de água”, lê-se na referida nota.
No imediato, a CIM recomenda “a adoção de medidas de poupança de água, na agricultura, designadamente com a redução de consumos na rega das culturas e no cultivo de culturas menos consumidoras ou de ciclos curtos e, junto da população, serão incrementadas medidas de sensibilização para o uso racional de água em todas as habitações”.

Chuva que irá cair não é suficiente para resolver o problema

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê alguma chuva para o dia de hoje, 10 de fevereiro mas não chegará para repor o nível de água nas barragens. "Não se preveem precipitações elevadas. Há probabilidade de chover entre 40% a 50% e o que ocorrer é bom, mas não será muito significativo em termos de quantidade de água", revelou a meteorologista do IPMA, Madalena Rodrigues. Há contudo a probabilidade de chuva nos dias 13 e 14 de fevereiro.

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