SERTÃ/EN2: Caminhos que ligam e que unem : “Modos de saber fazer”

A Estrada Nacional 2 (EN2) também leva o turista para dentro da arte.

SERTÃ/EN2: Caminhos que ligam e que unem : “Modos de saber fazer”

No concelho da Sertã são diversos os modos de saber fazer que encontramos. São muitos os artesãos que inventam e se reinventaram para dar corpo às lembranças que se levam deste concelho, a meio do percurso plantado.
À beira do km 345 está o Numoas, Núcleo Museológico e Oficina de Artesanato da Sertã.

Espaço que dá a conhecer os artesãos de cá

O Numoas é um espaço que resulta de uma parceria entre a AproSer (Associação de Produtores do Concelho da Sertã) e a autarquia sertaginense. Surgiu em 2016 “com a intenção de ter o artesanato que estava em vias de extinção. Iniciámos com 10 artesãos e agora temos 19”, refere notando assim o sucesso deste espaço com zona de exposição e de venda, que “tem uma apresentação diferente e daí ser interessante para quem visita ter este aspeto, não de loja comercial mas de exposição”, diz-nos Ana Delgado, da Câmara Municipal da Sertã.
O projeto global da EN2 veio dar um novo fôlego a este projeto local. Este foi um verão de exceção a nível de visitantes, e “o volume de vendas aumentou consideravelmente”. Tal situação agradou aos artesãos “também viram aí um nicho de mercado. Reinventaram-se e foram visionários. Perceberam que a N2 era um foco de mercado. As peças expostas referentes à estrada são adquiridas de imediato”, sustenta.
A Junta de Freguesia da Sertã cedeu uma sala à Câmara Municipal da Sertã, cujo espaço surge como resposta à necessidade de um local de exposição/oficina de artesanato sertaginense, dividido em diversos espaços distintos de manuseamento de materiais, nomeadamente  madeira, têxteis, linho e artes diferenciadas. No Numoas há, por isso, espaço para bordados, rendas, macramé aliado à bijuteria e aos porta-chaves, telhas que retratam a N2, tecelagem, azulejos e almofadas, entre outros.

Identidade marca a cerâmica de Eunice Arnauth

Eunice Arnauth é uma das artesãs que expõe os seus trabalhos no Numoas. Trabalha em cerâmica e tem atelier montado em Pedrógão Pequeno. Esta foi uma arte que se transformou em paixão e num caso mais sério de sustento, após ter ficado desempregada.

O aumento de turismo veio dar-lhe outra dinâmica. A artesã reinventou-se e passou também a fazer pequenas lembranças, nomeadamente “os ímanes alusivos à terra e daí foram-se desenvolvendo outras peças”, diz, satisfeita por, ao fim de quatro anos à procura, estar finalmente a trabalhar num espaço seu e ao seu gosto.
À sua imagem, as peças que idealiza têm sempre cores suaves. Em cada uma, entramos, quase que sem perceber, no seu mundo das borboletas, marca que criou para definir a metamorfose de criar peças únicas e sempre especiais, inspiradas nesta “terra lindíssima em que vivemos, em que o verde e azul são predominantes e que por vezes são o calmante e a inspiração para relembrar este cantinho que é tão nosso”, ilustra a artesã.
Neste cantinho, atravessado pela N2, Eunice Arnauth deu largas à imaginação e criou as já referidas lembranças, ou seja, os marcos da N2 em íman, com o respetivo km e o nome da terra. Sente que “foi muito bem aceite por toda a gente e assim a Sertã e Pedrógão Pequeno percorrem o país inteiro e também a N2”, diz. O projeto da rota da EN2 está a ser um impulso para a sua arte e “este ano fomos muito visitados e os ímanes voaram”, sublinha, confirmando que estes ímanes têm-lhe aberto portas para outras peças, outros concelhos e outras ideias. Eunice Arnauth está assim a dar cartas na sua arte que ainda tem, tal como a EN2, muitas pernas para andar, para crescer e para se expandir.

Uma aventura pintada com as letras da EN2

Na sede de concelho, na Sertã, está o espaço de Fernando Pereira. Trabalha igualmente a cerâmica mas ao nível da pintura, arte que surge na sua vida por influência direta da mulher que, por questões de saúde teve que deixar de o fazer. “Utilizei os conhecimentos académicos que tinha e fui criando até chegar ao ponto em que estou hoje”, reconhece.
Assumiu sozinho esta arte em 2014/15, um ano antes da efetivação da Associação de Municípios da Rota da EN2. Foram os clientes que o foram moldando. O sucesso que começou por ter e os pedidos que lhe iam fazendo mudaram-lhe a forma de trabalhar nesta, também, nova forma de passar o tempo.


Começou por causa de umas chávenas de poetas portugueses e “tenho peças em quase todo o mundo”, diz, “e tudo coisas do concelho”, acrescenta, deixando claro que “isto não é uma forma de vida. Junto o útil ao agradável”.
Pouco depois de se ter aventurado com os pincéis, começaram outros aventureiros a fazer a EN2. O avolumar de caminhantes e turistas começa a fazer-se sentir após a constituição da referida  associação e o concelho da Sertã assiste, ano após ano, a um crescente número de turistas que fazem este trajeto de 739 km desde Chaves a Faro.
O facto fez despertar em Fernando Pereira uma ideia diferente, a de fazer canecas, pois “tinha aqui muitas à mão. Comecei a pintá-las e a comunidade do facebook da N2 pediu-me para as disponibilizar. Têm tido muita saída”, revela. Quanto aos ímanes que também idealizou, “foi espantoso. Tudo o que fazia tinha saída. Foi um fenómeno engraçado”, reconhece, satisfeito pois os próprios pedidos vão desenvolvendo as suas aptidões. “Há pessoas que me pedem para pintar algo que tenha a ver com eles, ou motas, ou caravanas mesmo caras”, confirma, garantindo que “tem sido um prazer imenso fazer”.
Tal como muitos outros artesãos, também Fernando Pereira se reinventou por causa da EN2. Neste processo apenas deixa um reparo, pois, seguindo a lógica de união territorial, também os artesãos sertaginenses se deveriam unir no idealizar de certas peças que, tendo materiais diferentes, deveriam ter uma imagem mais uniformizada.
Têm sido muitas as ideias em torno da N2. Todos os contributos têm sido válidos, e nessa perspetiva, Fernando Pereira deixa a sua ideia para valorizar ainda mais o concelho junto de quem por cá passa e pernoita, dizendo que “faz falta criar, entre maio a outubro, períodos de receção dos viajantes, levando-os a passear, a conhecer o concelho. Muitos passam por aqui, levam um carimbo e mais nada. A arte podia ajudar nisso”, sustenta.

O autodidata que molda a história do concelho

 Laureano Esteves vive em Salgueiral, localidade do concelho da Sertã e a poucos quilómetros da EN2. Encontramos o avô do bigode, como é conhecido, na sua oficina, local de escape e onde, no que faz, homenageia a sua terra.

Há cerca de sete anos, após a reforma, e sentindo que fisicamente ainda estava bem, encontrou no ferro o molde para continuar a dar sentido à sua vida. Começou com os carrinhos de jardim mas depressa se aventurou nas imagens. A frio, molda o ferro com a ajuda do torno, do berbequim e da máquina de soldar. Das suas mãos e da sua imaginação surgem essas imagens, de maior ou menor dimensão, atualmente ligadas à história do concelho da Sertã, estando atualmente a trabalhar no Sertório.
Noutros tempos já fez uma filarmónica, uma aldeia indígena e algumas figuras históricas da Sertã como D. Nuno Álvares Pereira, o Padre Manuel Antunes, Lopo Barriga, Celinda, Viriato e Gonçalo Rodrigues Caldeira.
Procura ser didático mas não deixa de se informar, principalmente na internet, de como era a história ligada à personagem que pretende fazer, “depois é criação minha”, mas as criações que faz, diz, “não vendo”. A ideia é deixar aos vindouros um pouco de conhecimento de como surgiu a Sertã.
Laureano sonha com a abertura de um museu ali ao lado da sua oficina para que os de fora possam valorizar a sua arte tal como ele próprio a valoriza. "Está quase pronto", aponta. Cada peça que faz, acrescenta, “não tem preço. São baseadas nas minhas vivências. É um pedaço de mim que fica e que deixo para os meus netos.Todas as peças que tenho feitas vão ficar aqui até que um dia mais tarde, quando eu partir, eles façam disto o que quiserem”. O museu ficará assim, tal como as suas peças, à sua beira, a escassos metros da Rota da EN2, um projeto que enaltece e que reconhece ter sido uma boa aposta. “É bom para o concelho da Sertã”, reconhece, deixando claro que “sou apoiante em tudo o que seja bom para a Sertã”. 

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