SERTÃ/N2: Caminhos que ligam e que unem – “O Coração da N2”

Um projeto de coesão territorial desde 2016.

SERTÃ/N2: Caminhos que ligam e que unem – “O Coração da N2”

O projeto da Associação de Municípios da Rota da EN2 nasceu em 2016 e visava dinamizar o turismo ao longo do itinerário. 
Era arrojado e foi maioritariamente bem aceite pelos municípios por onde a via passava. Luís Machado, presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, foi o impulsionador e recordou à Rádio Condestável a base desta ideia que visa criar um projeto de coesão e de riqueza. “Começou da ideia de aproveitar a nossa estrada como um meio de ligação e de promoção dos nossos territórios”, disse o autarca que nasceu e cresceu perto da N2 e que, por este motivo, assistiu "a muitos movimentos característicos nesta ligação, que durante muitos anos, foi a única para sul”, descreveu.
Quanto à ideia de juntar todos os municípios, teve por base o conceito de “coesão e de criação de riqueza e que em junho de 2014 foi muito bem aceite”. A partir daí, e passados seis anos e meio “já está num patamar de afirmação que nos agrada a todos”, constatou.
O projeto começou a ser construído informalmente com Santa Marta de Penaguião, Sertã, Pedrógão Grande, Vila Pouca de Aguiar, Viseu e Almodôvar. Hoje tem já 34 associados, dos 35 municípios que são atravessados por esta via.
Luís Machado confessa que no início este projeto de união “era uma utopia e um sonho e havia muita gente a dizer que não era possível”, lembrou, mas a visão futurista dos novos autarcas veio mudar os primeiros receios. “A nossa esperança era que os autarcas vissem como nós, ou seja que a N2 era uma oportunidade de promoverem os seus territórios”, disse, mostrando-se surpreendido com “a adesão, disponibilidade e empenho mas principalmente com a dedicação e solidariedade de todos e que têm permitido que o projeto evoluísse”. Espera-se que em três anos o projeto “se afirme como um projeto distinto e como uma oferta distinta e segura”, explicou.
Inicialmente projetada com uma visão económica, 75 anos depois a visão é turística. Está a construir-se uma marca internacional e os 739 km são já percorridos por muitos estrangeiros e isso faz com que seja, no entender de Luís Machado, “a melhor oferta turística nacional pois mostra o país de norte a sul”, podendo transformar-se ainda num símbolo de coesão territorial.

A afluência de turistas, principalmente nacionais, mas também uma grande percentagem de espanhóis, neste ano de 2020, veio demonstrar que a aposta neste produto foi a mais acertada. Luís Machado confessa que não estava à espera que tal acontecesse mas “a pandemia acelerou essa visita”. Os nacionais não foram para fora e aproveitaram esta, que é uma “oferta segura, confortável e que encaixou nas condições impostas pela pandemia”, definiu, reforçando que a “N2 é complementar ao turismo de massas daí inventarmos esta oferta em 2014”.
Com muito por onde crescer, a EN2 sai de portas quase todos os dias, nos papéis que se escrevem ou nas imagens que se veem na comunicação social estrangeira e por isso, mais cedo ou mais tarde, irá acontecer a internacionalização desta via.
Neste trabalho contínuo de divulgação e de preservação da EN2, Luís Machado agradece ao Turismo de Portugal e às Infraestruturas de Portugal por serem determinantes para a melhoria e segurança de muitos troços. Esta parceria adivinha a instalação de sinalética, o desenvolvimento de conteúdos promocionais e a capacitação dos parceiros locais como alojamento, restauração e pontos de interesse. “Temos sinalizados mais de 3 500 agentes que vivem, trabalham e investem, vamos capacitá-los e vamos criar a maior rede colaborativa do país e a maior oferta do país de forma organizada e comprometida”, antecipou, sendo objetivo, “promover os nosso produtos, criar riqueza com o que produzimos e tornar este o projeto o mais sustentável do país”, lembrou. “Queremos que quem nos visita seja sempre surpreendido”, sublinhou.

A Sertã, um concelho no coração desta via

Um dos grandes beneficiários deste projeto é o concelho da Sertã. Membro fundador da associação, nunca houve dúvidas de que este era um bom projeto. José Farinha Nunes, presidente da Câmara Municipal de Sertã confirma que foi “bem estruturado e preparado e sentiu que havia ali um potencial muito grande” e por isso o projeto foi apoiado pela Sertã, disse.
Por tudo o que já se viu e sentiu nestes quatro anos, com especial enfoque neste 2020, em que cerca de 50 mil pessoas passaram pelo concelho da Sertã, o balanço feito por José Farinha Nunes não poderia ser mais positivo e “a aposta está ganha”. “Mostra o valor deste projeto que tem muito futuro e se não fossem os tempos de pandemia em vez de 50 mil teríamos tido muito mais “, acredita o autarca que se sente preparado para um boom futuro de turistas, contudo, “temos que ter o cuidado de preparar as empresas para darem essa resposta”, alertou, explicando que “temos que lhes dar (turistas) resposta e tudo tem que ser equilibrado passando uma imagem de qualidade".

O projeto da EN2 é turístico mas a economia beneficia diretamente com o mesmo. É igualmente um projeto “estruturante porque a N2 atravessa o coração das Vilas da Sertã, de Pedrógão Pequeno, também de Cernache do Bonjardim e dentro da própria Zona Industrial da Sertã”, fazendo com que “ as pessoas levem uma imagem perfeita e completa do que é o concelho da Sertã”, notou José Farinha Nunes.
Além do impacto que tem causado no país, esta tem sido uma estrada olhada com respeito no estrangeiro. José Farinha Nunes reitera que o projeto tem que continuar a crescer de forma sustentada e equilibrada por forma a que o visitante tenha tudo o que procura na sua passagem por estes concelhos e por isso “há um trabalho grande a fazer no futuro pois a nível internacional tem havido divulgação mais há ainda mais a fazer”. O edil sertaginense defende que haja formação e as pessoas “têm que inovar, incluindo as próprias empresas, caso contrário a sua vida não será fácil”.
Projetado como um todo, no entender do autarca, o futuro deste projeto só pode ser otimista, até porque continua a ser “bem acompanhado por todos os municípios. Se o grupo de trabalho continuar a trabalhar, com a ajuda dos 34 municípios, o projeto terá futuro e sucesso garantidos”, considerou.
Esta foi uma estrada que não foi construída toda ao mesmo tempo. Na cronologia do tempo, verificamos que em 1954, o Governo aprovou uma verba de 1500 escudos para requalificar o troço entre a Sertã e Vila de Rei e no dia 2 de junho de 1963 a estrada foi à praça para ser adjudicada a obra de abertura do troço entre a Ribeira da Isna e a Fundada, incluindo a ponte sobre aquela ribeira e no dia 4 de agosto seguinte o Conselho de Ministros adjudicou a construção daquele troço, incluindo a ponte. Este foi o último troço desta estrada a ficar concluído, corria o ano de 1970. A ponte foi aberta ao trânsito em maio desse ano, contudo a estrada de acesso à ponte ainda se encontrava em fase de acabamentos. Este é um marco histórico que eleva a importância do concelho da Sertã neste projeto. “Foi o centro do país a terminar a N2”, constatou o autarca.

Pedrógão Grande começa a inovar  

São muitas as valias que o concelho da Sertã vai buscar a esta N2 que tem porta de entrada neste concelho pelo vizinho de Pedrógão Grande. Também este faz parte dos membros fundadores desta associação. Logo no início Valdemar Alves, presidente da autarquia pedroguense, ficou consciente de que este era um grande projeto económico para o país e para os concelhos da N2. Sentia-se que este era um bom projeto mas o que não se esperava era que produzisse resultados positivos tão cedo, confessou o autarca. “A realidade do projeto e o seu rendimento, que já está a dar aos nossos comerciantes foi uma surpresa”, disse, considerando que os concelhos vizinhos, como a Sertã, foram os que mais beneficiaram com este projeto.
São assim muitas as pessoas e as organizações que se têm juntado ao projeto da Rota da EN2 e são também muitos os projetos que têm nascido tendo por base esta via em todos os concelhos. “Despertou um novo método de comércio e captação de clientes. Aqui em Pedrogão e na Sertã tem havido ideias”, reconheceu, dizendo que “as pessoas começaram a ser criativas e inovadoras e a ganhar amor à N2 e até mesmo a terem conhecimento de que ela existia”.
Assim, com esta associação renasceu também a importância desta via. Valdemar Alves lembrou que este “era um projeto que no fim do mandato de Marcelo Caetano teve a sua dimensão. Este projeto seria concretizado pela Sacor que exploraria as bombas de gasolina ao longo da via. Quando se começou a falar de autoestradas e de quererem prolongar a A1, o projeto do governo de Marcelo Caetano, a N2 seria a espinha dorsal do país e daí só se teria uma autoestrada, paralela à N2 e dali partiriam, para o litoral e para Espanha o que hoje se chamam scuts, naquele tempo ramais. Teria sido uma economia melhor para o país”, sustentou o autarca pedroguense.
A construção da Barragem do Cabril, em Pedrógão Pequeno, permitiu uma nova e moderna ligação entre as vilas de Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno e que hoje faz parte do traçado da EN2, sendo das poucas estradas a passar por cima de uma barragem. É por estes motivos e por tantos outros que Valdemar Alves considera que a N2 está na alma das pessoas que se preocuparam com a sua construção.
O projeto tem muito por onde crescer dentro e fora de portas. A passagem de estrangeiros no concelho faz adivinhar uma dinâmica crescente suportada nesta via e o autarca acredita que “o interior vai ser valorizado com esta dinâmica da N2”, que encerra em si uma história própria e dentro desta, muitas outras histórias, como a dos cantoneiros que vigiavam de perto a estrada. Uma das ideias é o aproveitamento turístico das casas destes, quer para fins museológicos, quer para fins hoteleiros. Em Pedrógão Grande existe apenas uma.
Falar desta estrada é, para Valdemar Alves, falar num novo tipo de turista que vem trazer movimento a estas terras cada vez mais despovoadas. “É uma novidade e uma aposta importante e ganhadora e está a dar movimento, mesmo com mau tempo”, gracejou.

Vila de Rei aposta em parcerias locais para promover o território

Se Pedrógão Grande é a porta de entrada da EN2 no concelho da Sertã, o concelho de Vila de rei é a porta de saída. É aí que passa o troço que segue em direção a Abrantes e que começou a ser construído em 1978. Em 1995 foi concluída uma variante de 24 km entre Vila de Rei e Abrantes, ou seja, parte do troço que deveria ligar Sertã a Ponte de Sor.
Esta é uma estrada antiga e global, que une e que sempre acarretou mais-valias para os sítios onde passa, uma vez que “era muito utilizada pelos nossos antepassados e tem uma história em termos comerciais”, como recorda Ricardo Aires, presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei. “Com as autoestradas e outras vias de comunicação transversais ela veio perdendo o que deveria ter sido na realidade”, constata o autarca.
Também este é um dos concelhos fundadores da associação e também aqui nunca houve hesitações acerca das mais valias deste novo projeto para o traçado mais comprido do país, que visa, recorde-se, valorizar turisticamente o interior, dar a conhecer e reconhecer estas terras, cada uma com a sua identidade e todas com o mesmo valor. Este projeto, diz o autarca vilarregense “coloca a N2 no mapa como deve ser e assim podemos dar mais valor e grandeza à N2”.
O caminho desta associação, que existe há quatro anos e “está sobre carris mas ainda tem que ser muito aperfeiçoado. É positivo mas tem que ser mais explorado e as câmaras têm que conseguir melhorar mais coisas. Certas situações que deveriam ser uma prioridade para todos e ainda não o são”, exemplificou, salvaguardando que “estamos todos em conjunto para que a N2 seja um produto económico para que estas terras se valorizem e para que haja riqueza para estes territórios”. Para que isto aconteça na realidade, “os municípios e os parceiros locais têm que trabalhar para isso”, alertou Ricardo Aires.
No concelho de Vila de Rei, a N2 é feita maioritariamente pelo traçado mais rápido, no entanto, a verdadeira N2 é mais interior. Nas mudanças que serão feitas na sinalética desta via, que se espera sejam iguais em todos os concelhos, Ricardo Aires espera dar também a conhecer outros pontos turísticos do concelho. “Iremos dar preferência ao antigo e ao meio da rota, ao Penedo Furado e aos passadiços”, exemplificou.
A base turística do projeto tem ajudado na economia local e Vila de Rei sente isso na pele, daí considerar que tanto municípios como parceiros locais têm que se empenhar em ter o que o visitante precisa, “acolhendo-os como deve ser, ter os produtos e saber vendê-los como deve ser e assim todos iremos lucrar com a N2. Temos que ser parceiros logo temos que nos unir. O que é bom aqui tem que ser bom noutro lado”, vincou.

No caso concreto de Vila de Rei, 2020 foi o melhor ano para este projeto. Foram muitas as pessoas que pararam, que ficaram e que assim ajudaram a economia local. “Há muita gente a pé, de bicicleta, em motas, carros, e autocaravanas. Temos muitas pessoas a dormir e a comprar no comércio. Tem sido uma mais valia para o comércio local”, disse também o edil que agradece aos parceiros locais o facto de Vila de Rei deixar de ser um concelho de passagem para ser agora um concelho de paragem.
Também neste concelho a pandemia foi benéfica já que muitas pessoas procuraram o interior para se refugiarem e assim fizeram a rota da EN2. O autarca espera que esta procura continue no pós pandemia.
Esta rota está em voga. Através dela, os atletas tentam superar as suas próprias forças e os escritores romanceiam os seus próprios passos. Há aqui um misticismo que ultrapassa toda a gente e todas as coisas. Nesta estrada de vontade própria, há vontades que se alinham com o asfalto e com os sentimentos que incorporam a paixão pela diferença, nesta identidade tão própria e tão única. “Ela é tão diferente e mítica, tão distinta que nos ultrapassa a todos. Quem a faz uma vez fica apaixonado e vai voltar, trazendo outros. Este sucesso que estamos a viver, com orgulho e satisfação, tem a ver com a própria estrada. Mostra coisas que as pessoas nunca viram, incorpora motivos de interesse desconhecidos até para os próprios locais”, definiu Luís Machado.
O autarca de Santa Marta de Penaguião está ciente de que “esta estrada é um bem patrimonial. Temos que ter a obrigação, competência e a humildade de não a estragar mas valorizar, mantendo-a como é, ou seja segura, confortável e próxima. Ela é única no país e na Europa. É uma estrada que, para além do alcatrão, é feita por gente, cultura, paisagens. É uma estrada de pessoas”, finalizou.

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